Jacopo Crivelli Visconti será o curador do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza

A Fundação Bienal de São Paulo anunciou a nomeação de Jacopo Crivelli Visconti como curador da participação nacional do Brasil na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia. Crivelli Visconti é atualmente curador geral da 34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto, cuja mostra principal pôde ser visitada entre setembro e dezembro, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, na capital paulista.
Presidente da Fundação Bienal, José Olympio da Veiga Pereira argumentou que “além de ser tradicional atribuir ao curador da Bienal de São Paulo a curadoria da representação brasileira da Bienal de Veneza, a escolha de Jacopo Crivelli Visconti se deve ao amplo conhecimento que o curador demonstra sobre a arte contemporânea brasileira, à sua experiência prévia como curador de mais de uma representação nacional em Veneza, à sua boa integração com a equipe da fundação e à afinidade entre os conceitos mobilizados por ele na 34ª Bienal de São Paulo e aqueles propostos pela 59ª Bienal de Veneza”.
Para representar o Brasil na mais antiga bienal do mundo, Crivelli Visconti selecionou o alagoano Jonathas de Andrade, um dos artistas brasileiros mais representativos de sua geração, que participou da 32ª Bienal de São Paulo (2016) com a videoinstalação O Peixe [The Fish] – depois exibida, no ano seguinte, em exposição individual no New Museum, em Nova York – e da 29ª Bienal de São Paulo (2010). “O artista busca em seus trabalhos a ideia de uma cultura autenticamente popular, em todas as possíveis acepções e na intrínseca complexidade dessa definição. O corpo, principalmente masculino, é o eixo norteador para abordar temas como o universo do trabalho e do trabalhador, e a identidade do sujeito contemporâneo, por meio de metáforas que oscilam entre a nostalgia, o erotismo e a crítica histórica e a política”, afirmou o curador do Pavilhão do Brasil.
Still de “O Peixe”, videoinstalação de Jonathas de Andrade. Foto: Reprodução
Para esta edição, Andrade está trabalhando em uma instalação inédita, comissionada para a ocasião, em diálogo com o tema da edição. ”O convite é uma surpresa e uma honra. Entretanto, a ideia de representar o Brasil hoje, seja onde for, é antes de tudo um desafio pela responsabilidade diante do quadro de complexidades cruciais que o país enfrenta. Que a arte consiga traduzir o embaraço que é viver nos nossos tempos e que inspire sonhos que permitam desatar esses nós”, disse o artista.
Com curadoria de Cecilia Alemani, a Biennale Arte 2022 toma seu título do livro The Milk of Dreams [O Leite dos Sonhos], da artista surrealista britânica Leonora Carrington (1917 – 2011). Para Alemani, “a artista descreve um mundo mágico em que a vida é constantemente repensada através do prisma da imaginação, e onde todos podem mudar, ser transformados, tornar-se outra coisa e outra pessoa. A exposição nos leva a uma jornada imaginária pelas metamorfoses do corpo e das definições de humanidade”.

As participações brasileiras nas Bienais de Arte e Arquitetura de Veneza ocorrem no Pavilhão do Brasil, construído em 1964 a partir de um projeto de Henrique Mindlin e mantido pelo Ministério das Relações Exteriores.

Jonathas de Andrade vive e trabalha em Recife (PE). O artista desenvolve vídeos, fotografias e instalações a partir da produção de imagens, utilizando-se de estratégias que misturam ficção, realidade, tradição e negociação.

 

Cartaz para o Museu do Homem do Nordeste. Foto: Reprodução
Um de seus projetos mais emblemáticos é um conjunto de trabalhos no Museu do Homem do Nordeste, concebido como possível contraponto ao museu antropológico criado em 1979 por Gilberto Freyre, ainda existente na cidade do Recife. Enquanto o museu original revisa a história colonial e a identidade da região a partir de uma reunião de artefatos e objetos históricos, Andrade desloca seu olhar para as pessoas, deixando transparecer a maneira como as relações de poder e de classe carregam os rastros e as consequências da história.
Outros trabalhos recentes, como Jogos Dirigidos (2019) e Infindável Mapa da Fome (2019-2020) nascem de um processo de convivência e troca com comunidades de lugares distintos do Brasil e que carregam as marcas de processos históricos muito específicos, resultando em trabalhos autenticamente colaborativos, em que a própria noção de autoria se dissolve e se torna mais complexa.
Curador e crítico de arte radicado em São Paulo, o italiano Jacopo Crivelli Visconti é doutor em Arquitetura pela Universidade de São Paulo (USP), foi membro da equipe da Fundação Bienal de São Paulo entre 2001 e 2009 – quando realizou a curadoria da participação oficial brasileira na 52ª Bienal de Veneza. É autor do livro Novas Derivas (2014) e colabora regularmente com publicações de arte contemporânea, arquitetura e design, além de escrever para catálogos de exposições e monografias de artistas.
Still de “Jogos Dirigidos”, videoinstalação de Jonathas de Andrade. Foto: Reprodução