Cantor português Nuno Bastos lança disco com sambas e participação de Zeca Pagodinho

Nuno Bastos. Foto: Biscoito Fino/Divulgação

Não fosse a popularidade do Carnaval lusitano, a facilidade de encontrar-se um “gajo” da geração de Nuno Bastos fazendo samba em Portugal seria a mesma de acharmos um fadista brasileiro no subúrbio carioca de Madureira. Longe de ser um baile erudito de máscaras ao estilo veneziano, o carnaval português é uma festa popular comemorada com entusiasmo em cidades como Sesimbra, Torres Vedras, Figueira da Foz, Ovar e Estarreja – cidade natal de Nuno, no Distrito de Aveiro. O Carnaval de Estarreja chega ao requinte de abrigar um sambódromo, três desfiles anuais e várias escolas de samba.

A paixão pelo samba fez Nuno Bastos aprender a “embocadura do brasileiro” e a cantar com sotaque, paixão e suingue brazucas. Nuno domina também o cavaquinho e todos os instrumentos de percussão, o que lhe concede autoridade para ser mestre de bateria e intérprete da Vai Quem Quer, a verde-e-branca pela qual bate o seu coração. Coração em Desalinho – Os Sambas de Ratinho, álbum lançado no Brasil pela Biscoito Fino, traduz o amor de Nuno pelo samba e pulsa firme como o momento mais importante de sua carreira.

Muita gente não sabe que Ratinho, apelido de Alcino Correia Ferreira, falecido em 2010 e parceiro de Monarco no samba que dá título ao álbum, nasceu no norte de Portugal, em uma pequena vila chamada Armamar. O álbum presta justa porém improvável homenagem a Ratinho, por muitas vezes eclipsado por parceiros como Monarco e Zeca Pagodinho.

Convidado ilustre do álbum de Nuno Bastos, Zeca Pagodinho foi o único a gravar em um estúdio carioca: o restante do disco foi gravado em Portugal, com a participação de músicos brasileiros e portugueses. Zeca divide os vocais em Amigo, Conselho Não É Sermão, parceria inédita de Pagodinho com Ratinho, encontrada em uma fita cassete esquecida no tempo dos encontros de Alfredo Galhões e Ratinho no Gato de Botas, bar tradicional do bairro de Vila Isabel.

Ainda no quesito “participação”, no megassucesso Loucuras de uma Paixão, Nuno recebe a cantora/fadista Raquel Tavares, que viveu quase três anos no Rio de Janeiro, frequentando os recantos do samba carioca.  O disco traz ainda uma nova versão de Parabéns pra Você, que o grupo Fundo de Quintal eternizou.

 

Nuno Bastos e Zeca Pagodinho. Foto: Gabriela Perez/Divulgação

O próprio Nuno Bastos selecionou o repertório de Coração em Desalinho – Os Sambas de Ratinho, buscando reunir sucessos e algumas pérolas menos conhecidas afeitas ao belo grave de sua emissão vocal. Entre elas os sambas Termina Aqui, de Ratinho, Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho, e a filosófica Amante da Verdade, parceria com Nelson Cavaquinho. Dentre as preciosidades escondidas, duas com mestre Monarco: Nunca Vi Você Tão Triste e Vou Procurar Esquecer, gravadas originalmente por Zeca Pagodinho.

Se Meiguice Descarada (Ratinho e David Correa) flerta com o candomblé baiano, o samba-enredo que abre o disco, Lua de Ogum (Zeca Pagodinho e Ratinho), pede proteção a São Jorge/Ogum. Também de Pagodinho e Ratinho surge a outra inédita do disco, Antes que Eu me Acostume, que fala com bom humor do sofrimento cobrado pelos desvarios do amor. Não poderiam faltar os maiores sucessos de Ratinho: Vai VadiarCoração em Desalinho (ambos em parceria com Monarco).

Coincidentemente lançado em 2020, marco temporal dos 520 anos do Descobrimento do Brasil, o álbum de Nuno Bastos foi produzido por Alfredo Galhões e Ricardo Moreira. Alfredo dirigiu todas as sessões de gravação, tocou teclados e compôs os arranjos das 12 faixas, com a experiência de quem trabalhou com Martinho da Vila, Alcione, Beth Carvalho, Diogo Nogueira, Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho (com quem tocou por 21 anos).

Já Ricardo Moreira vem da área artística da indústria fonográfica brasileira, à frente de várias produções de Beth Carvalho, Almir Guineto, Arlindo Cruz & Sombrinha e Zeca Pagodinho, além de ser um dos criadores do projeto Samba Social Clube e ter seu o DNA criativo no projeto Casa de Samba.

 

Ouça o álbum aqui.