CCBB Brasília reabre com exposição da artista japonesa Chiharu Shiota

“Linha Interna” (2019), Chiharu Shiota. Foto: Augusto Costa/Divulgação

Centro Cultural Banco do Brasil Brasília reabre seu espaço físico a partir desta terça-feira (22/9), após mais de seis meses com atividades presenciais suspensas, com uma exposição da artista japonesa Chiharu Shiota. Neste início, o horário de funcionamento será de terça-feira a domingo, de 9h às 17h, com visitação gratuita apenas mediante agendamento online pelo aplicativo ou site da Eventim.

Com curadoria de Tereza de Arruda, a mostra Linhas da Vida reúne trabalhos de diferentes momentos da trajetória de Chiharu Shiota e até uma instalação inédita, inspirada no povo brasileiro. Conhecida principalmente por seus trabalhos site-specific em grande escala, frequentemente compostos por emaranhados de linhas, Shiota é autora de uma obra multidisciplinar, realizada em suportes diversos: são instalações, performances, fotografias e pinturas.

Nascida em Osaka e radicada há 23 anos em Berlim, Shiota iniciou sua carreira artística em 1994 ainda quando estudante, tomando a pintura como principal suporte. Todavia, logo descobriu que o espaço bidimensional era limitado para seu processo criativo e expandiu para as outras linguagens. Linhas da Vida reúne cerca de 70 obras que datam desde o início de sua produção artística aos dias atuais.

Organizada em cinco núcleos, a exposição é um convite de Shiota para que o visitante faça reflexões sobre a vida, seu propósito, conexões e memória. “Quero unir as pessoas no Brasil, não importando sua origem, status social, formação educacional, nacionalidade ou qualquer outro fator divisor. Como humanos, devemos vir juntos e questionar o nosso propósito na vida e por que aqui estamos”, afirma a artista.

Na mostra, o público vai poder conferir grandes instalações inéditas, como o site specific Além da Memória (2019), obra inspirada na diversidade do povo brasileiro, criada em diálogo com a arquitetura moderna do Centro Cultural Banco do Brasil. Com cerca de cinco metros e em forma de uma espécie de teia, a instalação é composta por mais de 4 mil folhas de papel em branco em uma trama de lã tecida no espaço. É um convite para que o público idealize sua própria história e resguarde sua memória no percurso aí proposto.

Em Linha Interna (2019), instalação composta por três grandes vestidos vermelhos, além de cerca de 10 mil fios penduradas verticalmente, totalizando mais de 34 quilômetros de material. A inspiração vem das relações humanas, das memórias, da vida e da morte – temas que aparecem a todo momento na obra de Shiota.

A artista evoca uma lenda japonesa que conta que quando uma criança nasce, um fio vermelho é amarrado em seu dedo, representando a extensão de suas veias sanguíneas que correm do coração até o menor dedo de suas mãos. Ao longo da vida, esse fio invisível se entrelaça ao fio de outra pessoa, conectando uma à outra, de alguma forma que impactará profundamente seus caminhos.

A cor vermelha utilizada na instalação faz referência ao sangue que corre pelos vasos sanguíneos, que gera o fluxo de energia e a conexão entre as pessoas. Para Chiharu, esse fio vem do coração e cria um universo de conexões. “Acredito que todos estamos conectados. Você pode não ver isso com seus olhos, mas se pudesse, enxergaria que os humanos estão todos conectados”, ela afirma.

Foto: Augusto Costa Fotografia/Divulgação

A instalação também alude a concepção de uma presença física, de um corpo que acumula memórias, representado por meio de vestidos vermelhos que simbolizam a segunda pele, independente de nacionalidade ou cor, que nos acompanha em nossa vida e torna-se o acúmulo das memórias coletadas diariamente.

Os destinos da vida são questões recorrentes no processo de criação de Shiota. Em suas obras ela tece as linhas de sua vida e convida o público a fazer o mesmo. Essa é a ideia presente em Linha Vermelha (2018), obra que lança luz à produção manual da artista, uma de suas principais características. Em outro momento, dois barcos escuros surgem em meio a emaranhados de cordas pretas como alusão aos caminhos da vida.

Trata-se de Dois Barcos, um Destino (2019), uma metáfora da artista sobre as formas de avançar, viajar, sem necessariamente saber qual é o ponto final, tal qual o percurso da vida. “Os barcos simbolizam os portadores de nossos sonhos e esperanças, levando-nos através de uma jornada de incerteza e admiração”, diz Chiharu.

Chiharu divaga sobre a ideia de uma conexão universal de todos os seres. Transforma sua história em uma linguagem artística de caráter singular, sublime e tomada de elementos triviais. É disso que nasce o conjunto de esculturas e edições organizados em Conectada com o Universo (2016 – 2019), núcleo onde estão expostas gravuras que têm como ponto de partida um ser conectado ao universo por um fio, espécie de cordão umbilical simbolizando o início da vida antes mesmo do nascimento. Em outras obras, a artista sugere que este mesmo ser se vê imerso ou submerso em um buraco ou invólucro sem perspectiva de saída e, assim, sua conexão com o mundo externo passa a ser realizada por vias imaginárias ou mesmo espirituais.

Foto: Augusto Costa Fotografia/Divulgação

A presença do hermetismo não é ao acaso. Em dado instante de sua trajetória, Shiota tomou uma decisão existencial e parou de pintar – na época, seu principal suporte – porque não sentia que sua vida e sua criação artística estavam conectadas, entrelaçadas. Sonhou que se via dentro de uma pintura e foi assim que concebeu a icônica performance Transformando-se em Pintura (1994).

A tinta usada por Shiota nesta performance era tóxica e a artista sentiu imediatamente sua pele queimar e o pigmento só desapareceu de sua pele depois de alguns meses. Passados cerca de 20 anos, a artista voltou a utilizar a tela, porém não como um suporte pictórico convencional, mas sim como suporte de sua assinatura pessoal, sobre a qual aplica a trama de lã originariamente utilizada em suas instalações.

A exposição também traz fotografia da instalação A Chave na Mão (2015), que esteve na 56ª Bienal de Veneza e na qual Chiharu representou seu país no pavilhão do Japão. A obra foi composta por dois barcos que lembram, segundo a artista, duas mãos receptoras prestes a agarrar ou deixar de lado uma oportunidade, postos em um emaranhado de 180 mil chaves.

“O montante foi coletado por Shiota em uma campanha internacional, ato que a comoveu porque as pessoas normalmente dão suas próprias chaves aos outros em quem confiam. E, para artista, as chaves estão associadas a memórias pessoais que nos acompanham em nossas vidas cotidianas”, conta Tereza de Arruda. A lã vermelha usada para montar a trama que emaranha os barcos simboliza os vasos sanguíneos do corpo e conecta a multidão dos proprietários das chaves.

Foto: Augusto Costa Fotografia/Divulgação

Em outro núcleo, Linhas da Vida apresenta trabalhos pautados no corpo, tema que aparece desde os primórdios na criação de Shiota. São obras em que a artista investiga questões ligadas à identidade, memória, corpo, fragilidade e doenças.

“O trabalho de Shiota evolui a partir de uma dinâmica orgânica de fazer e criar. Nota-se aqui que dentro de uma mesma temática há uma abrangência de obras distintas, como filmes resultantes de performances intimistas, tendo a artista como única protagonista em um relato pessoal, objetos compostos de roupas, que na perspectiva de Shiota existem como uma segunda pele humana a carregar em si os traços e vestígios da experiência humana e memória aí vivenciada, ou ainda objetos de vidro representando órgãos do corpo humano sãos ou dilacerados. Estes gestos e objetos artísticos referem-se à vida humana de forma geral”, finaliza a curadora.

Apoiadora da mostra, a Pingouin Fios cedeu mais de 4 mil novelos de lã, utilizados pela artista na implantação da obra Além da Memória. O material também será usado pelo público nas atividades educativas paralelas à mostra.

Foto: Augusto Costa Fotografia/Divulgação