CCBB paulista expõe obras do pintor italiano Giorgio Morandi

O Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo exibe a partir do dia 22 de setembro um total de 57 obras, entre pinturas, fotos, colagem e instalação, do pintor italiano Giorgio Morandi (1890 – 1964) e de 23 artistas que têm uma correlação com o trabalho do artista. Esse é um reencontro de Morandi com o Brasil, mais de 60 anos após o pintor receber o Grande Prêmio de pintura na 4ª Bienal de São Paulo em 1957.
Com uma investigação profunda da cor e da luz permeando sutilezas, Giorgio Morandi se dedicou intensamente na pintura de naturezas-mortas, especialmente de conjuntos de garrafas. Seu estilo ficou marcado por uma obra que reflete sobre o tempo e as relações produzidas pelo olhar.
Esse universo será representado em O Legado de Morandi, que tem curadoria da dupla Alberto Salvadori e Gianfranco Maraniello. A mostra reúne 34 obras que vieram diretamente do Museo Morandi, localizado na cidade de Bolonha. O artista também participa da 34ª Bienal de São Paulo, que poderá ser visitada gratuitamente no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, até 5 de dezembro de 2021.

 

CCBB SP/Divulgação

 

“O percurso expositivo apresenta uma variedade de obras diversas – entre pinturas, aquarelas, desenhos e gravuras – que formam uma métrica composta por contínuas referências formais e variações tonais, e trazem à luz os temas examinados por Morandi desde os primórdios até a maturidade: naturezas-mortas, flores e paisagens, os temas privilegiados da sua contínua pesquisa de novas modalidades representativas e objetos de uma indagação extremamente atual sobre a linguagem pictórica e gráfica e sobre as infinitas relações possíveis entre volumes, espaço, luz e cor”, ressalta o curador Gianfranco Maraniello.

Morandi tinha particular interesse pelas pinceladas de Paul Cézanne, André Derain, Douanier Rousseau, Pablo Picasso e Georges Braque, além de mestres da tradição italiana como Giotto di Bondone, Masaccio, Paolo Uccello e Piero della Francesca. A sua pintura foca numa gama bastante reduzida de temas, como as vistas do povoado de Grizzana ou as célebres naturezas-mortas de garrafas e potes. Nas obras, é possível ver as sutis mudanças na luz da tarde, a poeira que se deposita nos objetos, a passagem do tempo que se faz visível na própria matéria das garrafas – que reaparecem uma e outra vez, quadro após quadro, ano após ano.

Essa exposição proporciona um reencontro de Morandi com o Brasil, pois o artista recebeu o prêmio de pintura na 4ª Bienal de São Paulo em 1957. “É uma oportunidade para prolongar o tempo e o olhar sobre a sua obra, para além do contato excepcional de 1957. Uma tentativa de oferecer novas possibilidades de adquirir familiaridade com as séries pictóricas e retraçar os motivos da sua ‘ordem’, graças ao extraordinário volume de patrimônio e de iniciativas que qualificam o museu dedicado ao artista por sua cidade natal”, comenta Maraniello.

 

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No térreo do CCBB, uma reprodução fotográfica em grande formato de Luigi Ghirri levará o público a ter a sensação de estar no ateliê do próprio Morandi. Na exposição, o público ainda pode conferir obras de outros artistas que se inspiraram no trabalho de Morandi, como Josef AlbersWayne Thiebaud, Franco Vimercati, Luigi Ghirri, Rachel Whiteread e Lawrence Carroll.

De acordo com Maraniello, todos foram impactados pelo trabalho do pintor italiano e mostram a capacidade de atingir várias gerações. “Autonomia e a irredutibilidade do percurso de Morandi constituem a exemplaridade de uma resiliência que desarticula os paradigmas da vanguarda e das neovanguardas, apresentando-se nos contextos interpretativos da China, do Japão, da Coreia do Sul que, em anos recentes, têm acolhido com grande entusiasmo exposições promovidas em colaboração com o Museo Morandi“, finaliza.

Na história das artes visuais do século 20, Morandi ocupa um lugar especial como expoente destacado de uma linhagem de artistas cuja obra se impõe, em um mundo cada vez mais cacofônico e ruidoso, pela reiteração silenciosa, a parcimônia, a simplicidade. A pintura de Alfredo Volpi, o cinema de Yasujirō Ozu ou a poesia de João Cabral de Melo Neto são exemplos de produções afins à de Morandi, em que as coisas se apresentam pelo que elas são, como se isso fosse simples.

 

Estúdio de Morandi. Foto: Luigi Ghirri, CCBB SP/Divulgação

 

Giorgio Morandi nasceu em 20 de julho de 1890 em Bolonha, cidade italiana onde passa toda a sua vida. Nas primeiras pinturas, a partir dos anos 1910, mostra a sua precoce atenção aos impressionistas franceses, em particular Cézanne e, logo depois, Derain, Douanier Rousseau, Picasso e Braque. Voltou a sua atenção para a grande tradição italiana, estudando Giotto, Masaccio, Paolo Uccello e Piero della Francesca.

Nos meados dos anos 1910, pintou obras que mostram uma experimentação futurista e, a partir de 1918, passou de maneira muito pessoal por uma breve fase metafísica. Em 1918, entrou em contato com a revista e o grupo Valori Plastici, com o qual expôs em Berlim em 1921. A partir dos anos 1920, iniciou um percurso pessoal que seguirá com especial coerência, mas também com resultados sempre novos, dedicando a sua pintura apenas a três temas: naturezas-mortas, paisagens e flores.

 

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Em 1930, obteve a cátedra de técnica da gravura na Accademia di Belle Arti de Bolonha, cargo que manterve até 1956. Inicialmente apoiado e admirado por literatos, em 1934 foi apontado por Roberto Longhi como “um dos maiores pintores vivos da Itália”, por ocasião da sua aula inaugural na Universidade de Bolonha. Em 1939, recebeu o Segundo Prêmio de pintura na 3ª Quadrienal romana.

Em 1943, durante a guerra, deixou Bolonha e se refugiou em Grizzana, onde permaneceu até 25 de julho de 1944. Durante esse período, pintou numerosas paisagens. Em 1948, depois de expor ao lado de Carrà e De Chirico na Bienal de Veneza, recebeu o prêmio de pintura da Comuna de Veneza.

Em 1953, recebeu o Primeiro Prêmio de gravura na 2ª Bienal de São Paulo, em que participou com 25 águas-fortes. Em 1957, a Bienal de São Paulo lhe conferiu o Grande Prêmio de pintura, à frente de Chagall. No último decênio, chegou a uma pintura cada vez mais rarefeita. Morreu em Bolonha em 18 de junho de 1964.

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