“Cinema e Vigilância” é o tema da 15ª Mostra CineBH

15ª CineBH – Mostra de Cinema de Belo Horizonte e o 12º Brasil CineMundi – International Coproduction Meeting acontecem em ambiente virtual entre os dias 28 de setembro e 3 de outubro, com programação disponível gratuitamente neste site. Ao longo de seis dias de intensas atividades, serão exibidos 90 filmes nacionais e internacionais em pré-estreias e mostras temáticas, vindos de 12 Estados brasileiros e de 17 países.

A programação inclui ainda cinco debates, cinco painéis, 10 rodas de conversa, um showcase, duas masterclasses internacionais, dois workshops, encontros de coprodução e muitas outras atividades para pensar o mercado audiovisual a partir do que está sendo feito no presente – especialmente com as limitações impostas pela pandemia de Covid-19 – e do que será o cinema do futuro. A CineBH deste ano vai colocar em foco assuntos relacionados ao uso das tecnologias de vigilância na construção de expressões audiovisuais, que colocam em xeque o controle do indivíduo em uma sociedade hiperconectada.

“A Mostra CineBH e o Brasil CineMundi são espaços de formação, intercâmbio, lançamento e discussão da mais significativa produção cinematográfica atual. Estabelecem diálogo entre as culturas, ampliam as oportunidades de negócios, parcerias e participações de projetos e profissionais brasileiros no mercado global. E, ainda, reserva um espaço para as manifestações coletivas e sociais da cidade de Belo Horizonte mostrando a força que vem das comunidades”, ressalta Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra CineBH e do Brasil CineMundi.

Assista ao trailer de Carro Rei:

A temática da 15ª CineBH será “Cinema e Vigilância”, em referência ao novo estatuto do controle que surge com as atuais tecnologias e atravessa a economia, os costumes e todo nosso imaginário, influenciando cineastas e orientando intersecções entre estética e política, privacidade e espetáculo, linguagem e fato. A proposição do trio de curadores Pedro ButcherFrancis Vogner dos Reis e Marcelo Miranda é a de investigar de que maneira o conceito de “vigilância” surge nos primórdios do próprio cinema e se desenvolve ao longo das décadas, sendo radicalmente alterado há 20 anos, com os atentados do 11 de Setembro, e passando por outra reconfiguração com a ascensão das grandes “marcas” de comunicação e relações sociais, como Facebook, Apple, Google e Amazon.

“Em tempos de fake news, o mito da imagem como testemunho já não determina mais que o registro da câmera seja sempre um retrato da realidade. O que a ficção do cinema, durante o século 20, imaginava como distopia de uma sociedade controlada por uma instância de poder invisível, em personagens controladores como o Dr. Mabuse do Fritz Lang, ganhou uma dimensão inimaginável hoje em dia”, afirma Pedro Butcher.

“O Testamento do Dr. Mabuse”. Foto: Universo Produção/Divulgação
“Toda Luz em Todo Lugar”. Foto: Universo Produção/Divulgação

Durante a CineBH, filmes e mesas de debates vão amplificar as ideias e fazer as pontes entre os mecanismos históricos e modernos de vigilância e a relação com o cinema e a forma de produzir audiovisual. “A utilização de dispositivos tecnológicos altamente sofisticados marca a estética e a narrativa de muitos filmes realizados sob o impacto do 11 de Setembro, refletindo os efeitos nocivos ou excludentes desses sistemas de vigilância e apropriando-se das próprias imagens geradas por essas tecnologias para transmitir efeitos críticos ao espectador”, afirma Francis Vogner.

Uma das questões a serem abordadas é em que medida a pandemia amplificou ainda mais as dependências do indivíduo com os aparatos tecnológicos – não só dispositivos materiais, mas toda uma rede abstrata e não-concreta de bits, algoritmos, localizadores e monitoramentos que acontecem literalmente a cada segundo que estamos próximos de algum aparelho conectado a qualquer tipo de rede de informações. “Isso, ao fim, é produção de um novo tipo de imagem, tanto na sua natureza quando na sua utilização. E até pela inquietude natural de artistas que usam a imagem como meio de expressão, elas chamam atenção para novas formas de realização cinematográfica que estão aparecendo agora, respondendo a tudo isso”, completa Marcelo Miranda.

“Não Haverá Mais Noite”. Foto: Universo Produção/Divulgação

Relacionado à temática de “Cinema e Vigilância”, o destaque internacional da CineBH em 2021 é o coletivo multidisciplinar Forensic Architecture. Fruto de pesquisas inovadoras através do cinema e audiovisual, o grupo, com base na universidade Goldsmith, em Londres, faz uso subversivo dos mecanismos e imagens de vigilância atuais – como registros captados por satélites, câmeras de segurança, portáteis e smartphones – para investigações profundas sobre diversos assuntos de interesse mundial e humanitário.

Realizando obras entre o documentário e as artes visuais, o Forensic Architecture investiga e reconstitui situações de guerra, confronto e desrespeito aos direitos humanos e ao meio ambiente, levando em consideração contextos jurídicos, políticos e artísticos. O grupo foi fundado em 2011 pelo arquiteto israelense Eyal Weizman e reúne integrantes de várias áreas, como cineastas, arquitetos, urbanistas e ativistas de diversos países – um dos fundadores do grupo é o arquiteto brasileiro Paulo Tavares, que participará de debates durante a mostra.

“O Monopólio da Violência”. Foto: Universo Produção/Divulgação

A sessão de abertura, na noite de 28 de setembro, será a conjugação de todas essas linhas com o debate inaugural reunindo Paulo Tavares, Bernardo Oliveira (crítico e pesquisador) e Patrícia Mourão (pesquisadora, professora e curadora) para discutirem “Cinema e Vigilância”, e a exibição de O Assassinato de Harith Augustus, conjunto de curtas-metragens do Forensic que apresenta aspectos diferentes de uma investigação meticulosa em torno da morte de um homem negro pela polícia de Chicago no dia 14 de julho de 2018.

Na Mostra Contemporânea, a CineBH conta com 27 filmes – 16 curtas-metragens e 11 longas –, entre brasileiros e estrangeiros. Do Brasil, vem um panorama de urgência da produção nacional, com muitos trabalhos recém-finalizados em plena pandemia e outros que estiveram sendo preparados e foram pegos de surpresa quando 2020 chegou alterando quaisquer expectativas.

Assista ao trailer de A Primeira Morte de Joana:

Os longas trazem novidades que também contêm paralelos com a temática de “Cinema e Vigilância”, ainda que não sejam diretamente conectados a ela: Um Dia Qualquer (Pedro Von Kruger, RJ), Desaprender a Dormir (Gustavo Vinagre, SP), A Primeira Morte de Joana (Cristiana Oliveira, RS) e Nós, Passarinhos (Antonio Fargoni, SP). Os curtas estão divididos em quatro sessões cujos títulos são autoexplicativos: “Brasil de agora”, “Geometrias do espaço”, “Medo e delírio” e “Visões adiante”.

Especificamente na Mostra Temática, os brasileiros incorporam em suas formas várias das questões que estarão em debate no evento. Em pré-estreia nacional, Cena do Crime (Pedro Tavares, RJ) apresenta uma trama policial singular, toda narrada do ponto de vista de câmeras que podem (ou não) ter captado um crime. Por sua vez, Auto de Resistência (Natasha Neri e Lula de Carvalho, RJ) acompanham-se famílias das vítimas dos homicídios praticados pela polícia do Rio de Janeiro, do momento da morte, passando pelas investigações da polícia aos julgamentos ou arquivamentos de processos.

Assista ao trailer de Auto de Resistência:

Nos títulos estrangeiros da Mostra Contemporânea, cinco filmes em pré-estreia mostram, de formas diversas, as contradições de um mundo muito prático nas relações com máquinas e dispositivos e que se vê também sob controle desses mecanismos. Do pesadelo distópico de Nas Sombras (Erdem Tepegöz, Turquia) ao esquisito pastiche de reality show Na Casa do Diretor (Mark Isaacs, Reino Unido), passando pelo olhar sempre brutal do consagrado documentarista israelense Avi Mograbi (Ocupação), das questões familiares dentro de uma sociedade segregada em Um Rifle e uma Bolsa (Cristina Haneș, Isabella Rinaldi, Arya Rothe, Índia/ Romênia/ Itália/ Qatar) e a atenção de um cineasta a moradores de rua na Harlem contemporânea na epopeia intimista Eu Ando Sobre a Água (Khalik Allah, EUA).

Os estrangeiros da Mostra Temática se espalham por várias frentes relativas ao “Cinema e Vigilância”. A maioria é de verdadeiras investigações sobre o estatuto das imagens e de que forma sua captação pode ser usada por instâncias opressivas de poder sob variadas formas. A partir de centenas de registros amadores das filmagens de um filme da franquia Transformers, por exemplo, Kevin B. Lee concebeu Transformers: O Premake (EUA), onde se vê não só a dimensão da ubiquidade das câmeras, mas também da operação de guerra que é a produção de um grande blockbuster hollywoodiano da era global.

“Transformers: O Premake”. Foto: Universo Produção/Divulgação

Outros se fazem valer de estruturas semelhantes, como Eleonore Weber em seu Não Haverá Mais Noite (França), feito a partir de imagens captadas por helicópteros em missões de guerra no Afeganistão, Iraque e Paquistão, revelando um aterrador teatro da guerra. Outros títulos se relacionam de formas igualmente críticas com as estruturas de registro, como Toda Luz em Todo Lugar (EUA), documentário de Theo Anthony que examina com detalhes vários aspectos da sociedade da vigilância, e O Monopólio da Violência (França), de David Dufresne, cujo foco são as manifestações do movimento dos “coletes amarelos” que tomaram conta da França em outubro de 2018.

A mostra Diálogos Históricos em 2021 também se conecta à temática buscando justamente na história do cinema alguns instantes em que as ações de controle foram transformadas em elementos expressivos por cineastas atentos ao que acontecia em seus contextos. Todas as sessões são acompanhadas por um bate-papo entre curadores da CineBH e críticos ou pesquisadores convidados para falarem sobre o filme em questão. Serão Aelita, Rainha de Marte (Yakov Protazanov, União Soviética, 1924), comentado pelo pesquisador João Lanari; O Testamento do Dr. Mabuse (Fritz Lang, Alemanha, 1933), com comentários do crítico Inácio Araujo; e O 5º Poder (Alberto Pieralisi, Brasil, 1962), comentado pelo pesquisador Reinaldo Cardenuto.

“Aelita, Rainha de Marte”. Foto: Universo Produção/Divulgação

Por ocasião da masterclass “Roteiro e processos de criação”, evento realizado em conjunto com Brasil CineMundi, a mostra contemporânea internacional traz ainda dois filmes do cineasta uruguaio Federico Veiroj, um dos maiores talentos da nova geração de realizadores latino-americanos. Serão exibidos A Vida Útil – Um Conto de Cinema, filme que tem como cenário a Cinemateca Uruguaia, e Vida de Doleiro, drama policial que conta com participação especial do ator brasileiro Paulo Betti e fala sobre corrupção nos tempos da ditadura militar.

Na mostra A Cidade em Movimento, composta por trabalhos realizados em bairros e comunidades de Belo Horizonte e região metropolitana, a proposta da curadora Paula Kimo foi a de “Cidade (em) comum”, pensada a partir de alguns questionamentos: é possível pensar uma comunidade de imagens que dialoga com as práticas e fazeres coletivos que movem a cidade? Como os gestos de produção coletiva e compartilhada se inscrevem nos filmes que a cidade produz, não apenas do ponto de vista temático, mas também na forma, na narrativa e nos processos de criação e distribuição dos filmes?

“A Vida Útil – Um Conto de Cinema”. Foto: Universo Produção/Divulgação

Serão 20 filmes exibidos em cinco sessões, todas acompanhadas de rodas de conversa com convidados e convidadas para estenderem a experiência – estética e comum – dos trabalhos. Para saber mais detalhes dos filmes e convidados da mostra A Cidade em Movimento, clique aqui.

Por fim, na programação de filmes da CineBH, estudantes e educadores têm programação garantida com a realização das sessões Cine-Escola e Cine-Debates, planejadas para atender a alunos a partir de cinco anos de idade. Os filmes ficam disponíveis no site, possibilitando que os professores tenham tempo para trabalhar os títulos com os alunos.

Assista ao trailer de Todos os Mortos: