Élle de Bernardini reflete sobre questões de gênero, identidade e sexualidade

“O Olho” (2019). Foto: Ana Pigosso/Divulgação

Artista multidisciplinar, Élle de Bernardini transita entre a dança e as artes visuais e retrata o corpo inteiro, trans, vivo e pulsante. Por meio de telas, pinturas, esculturas, foto performances e desenhos, ela faz alusão às questões da sexualidade que confrontam os padrões que circundam o mundo contemporâneo e busca resgatar e reconstruir as narrativas esquecidas, apagadas e silenciadas das minorias de gênero.

Uma seleção inédita destes trabalhos poderá ser vista em Nem Tudo que Reluz É Ouro, exposição com curadoria de Ana Carolina Ralston, em cartaz a partir desta quinta-feira (10/9) na Galeria Kogan Amaro, em São Paulo.

“Memória e repetição. Essas duas palavras são a base das obras reunidas na primeira mostra individual da gaúcha Élle de Bernardini na Galeria Kogan Amaro São Paulo. A mostra trata a artista como um corpo inteiro e pulsante, que percebe na reafirmação dessas duas constantes uma forma de mudar a percepção de um fato, criando, assim, novas verdades”, escreve a curadora.

Bernardini traz aos seus trabalhos dor e alegria, beleza e horror, emoções que remetem aos limites que atravessamos na vida. O rosa e o azul surgem em suas criações como elementos simbólicos para borrar as margens entre o feminino e o masculino, o certo e o errado e as convenções, de modo geral, da sociedade normativa. “O trabalho de Élle aborda a intersecção entre questões de gênero, sexualidade, política e identidade com a história da humanidade e da arte a partir de sua própria experiência”, pontua Ralston.

Élle faz uso de materiais diversos, como plásticos, pvc, tecidos macios, frios e quentes ou ásperos para aludir à uma beleza que incomoda. São recortados dando formas às partes do corpo sexual, são agradáveis ao olhar, mas também desconfortáveis ao se aproximar no desejo de tocá-los.

“DNA I” (2019). Foto: Ana Pigosso/Divulgação

Em meio ao período de isolamento social imposto pela pandemia do Covid-19, Bernardini percebeu-se por um momento suspensa das pautas relativas à sexualidade e questões de gênero no mundo da arte. Isolar-se a levou a um contato mais intenso e criativo com sua obra. Decidiu, a partir disso, concentrar sua pesquisa no processo formal das relações entre as cores rosa e azul, escolhendo formatos e dimensões que cabiam em sua casa.

Tal qual um casulo, Élle de Bernardini voltou-se para dentro. Passou a se questionar como artista trans e a pensar se deveria abordar sempre em seu trabalho as questões de gênero, de sexualidade e de sua identidade transexual. Mas, tudo indica, não há resposta para essas perguntas. “Não há arte inocente ou arte da inocência e sim, a arte é também um posicionamento do artista perante do mundo”, segundo Ricardo Resende, diretor artístico da galeria.

“O próprio ‘Élle’, faz alusão a uma ambiguidade que habita nosso ser. A palavra, uma espécie de raiz de seu nome de batismo, coloca em cheque a língua portuguesa e a francesa e suas semelhanças e oposições na percepção do masculino e feminino. É justamente sobre esse virtuoso acasalamento que se encontra o ser artista”, complementa a curadora da mostra, Ana Carolina Ralston.

“Paisagem VIII” (2019). Foto: Ana Pigosso/Divulgação

Nascida em Itaqui, no interior do Rio Grande do Sul, em 1991, Élle de Bernardini vive e trabalha em São Paulo, transitando entre a dança e as artes visuais – além de ser uma mulher trans, interessada em resgatar e reconstruir as narrativas esquecidas, apagadas e silenciadas das minorias de gênero. Formada em balé clássico pela Royal Academy of Dance, em Londres, e pelos mestres japoneses de butô Yoshito Ohno e Tadashi Endo, a artista foi a única mulher transexual a ser aceita para estudar balé clássico na escola inglesa – onde retornou em 2011 e 2012 para a conclusão de sua formação de 13 anos de balé.

A linguagem artística de Élle de Bernardini começou a ser modificada em 2013, ano em que ela se autodenominou como artista visual. O trabalho dela já foi exposto em diversas instituições nacionais, como o MASP, a Pinacoteca de São Paulo, o Museu de Arte do Rio/MAR, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

Serviço:

Nem Tudo que Reluz É Ouro, individual de Élle de Bernardini
Curadoria: Ana Carolina Ralston
Local: Galeria Kogan Amaro
Período expositivo: de 10 de setembro a 31 de outubro
Endereço: Alameda Franca, 1054 – Jardim Paulista, São Paulo
Horário: das 11h às 15h, com agendamento prévio
Informações: (11) 3045-0755/0944

“El Cuero” (2019). Foto: Ana Pigosso/Divulgação