O pulso ainda pulsa

Roger Lerina

Teatros, cinemas, museus, casas de espetáculos – está tudo fechado. As medidas de combate à epidemia da Covid-19 alteraram radicalmente o funcionamento e a rotina de todas as instituições e pessoas – e a área da arte e da cultura não escaparam desse apagão. Mas isso também significa que a criação parou?

Colocamos para seis renomados artistas brasileiros três perguntas sobre este período de afastamento social – queríamos saber se e como seguem criando em meio à pandemia. Como vocês podem concluir pelas respostas, a arte brasileira ainda pulsa, e retornará com força renovada quando tudo isto que estamos vivendo agora ficar para trás.

1) O que você está criando nestes tempos de isolamento social?
2) Como a pandemia está afetando a arte e a cultura? Qual será o futuro dessa área, na sua opinião?
3) Qual é a primeira coisa que você gostaria de fazer quando isso tudo passar?

VALÉRIA BARCELLOS, cantora e atriz

Valéria Barcellos. Foto Silas Lima/Divulgação

1) Tenho me dedicado à escrita e a alguns projetos de audiovisual. Curioso pensar o quanto – no meu caso, que fiquem bem elucidado – o isolamento me foi benéfico. Me fez parar, pensar e organizar projetos pessoais.

2) A pandemia está afetando a arte e a cultura “dos pequenos” diretamente. Necessitamos da aglomeração, e é justo o que não podemos ter (fazer) neste momento. Mas, como sempre, nos reinventamos e nos ajudamos mutuamente. O futuro dessa área prevê ainda mais esforço em manter-se, o que acaba por não ser tão diverso da situação pré-pandêmica. Não há uma solução miraculosa, mas como antes, sempre estaremos tentando estar aqui!

3) Um show repleto de amigos e do calor do público bem de pertinho, com muito abraço e muito carinho. Lágrimas e refrões cantados a plenos pulmões.

MARINA CAMARGO, artista visual

Marina Camargo. Foto de Nik Neves

1) Desenhar acabou sendo a atividade que tem me acompanhado durante todo o período de isolamento social. Não tanto como um projeto a ser realizado, mas como uma atividade diária, um modo de articular um pensamento não-racional com recursos reduzidos (como tinta nanquim e papel sobre a mesa de trabalho). O que se iniciou como um exercício diário logo acabou tomando um corpo mais consistente, como se os desenhos definissem o próprio mundo de sua existência. Até agora já são mais de 80 desenhos, e o trabalho segue crescendo, sigo pensando e aprendendo com os desenhos. Também tem sido um momento de conversas e trocas com outros artistas e autores. A mesma distância física que nos afastou dos amigos próximos também propiciou a troca com outras pessoas antes não tão próximas. É como se estivéssemos todos equidistantes, igualmente próximos e distantes dos amigos que moram no mesmo bairro ou noutro país. A partir desses diálogos surgiram ideias de projetos futuros, assim como trabalhos realizados durante esses meses de isolamento.

2) A pandemia afetou drasticamente todo o sistema das artes, de instituições aos mais diversos eventos culturais. O efeito causado no meio das artes ainda é difícil de dimensionar, em especial porque a pandemia ainda não acabou. Apesar do momento de indefinição, há algo que ficou bastante evidente: o trabalho do artista não deixa de existir nem de ser pertinente quando o meio em que ele está inserido é radicalmente alterado. No caso das artes visuais, inúmeras exposições foram suspensas, bienais adiadas, galerias fechadas, mas o trabalho do artista segue com a mesma força e potência, mesmo quando o cenário é de devastação. Ainda assim, a posição do artista é a mais vulnerável no sistema das artes. Gostaria muito de ver as instituições de arte (e aqui me refiro às artes visuais) buscando o diálogo com os artistas para pensar o futuro de suas atividades e de sua existência. Acredito na potência do diálogo entre curadores / diretores / gestores com os artistas.
Seria uma pena passamos por esse momento de transformação sem aproveitarmos para buscar modos de pensar coletivamente, conjuntamente.

3) Abraçar os amigos, poder estar perto da família. Os abraços fazem muita falta.

PAULO BETTI, ator

Paulo Betti. Foto Reprodução do site www.aferanaselva.com.br

1) O que estou achando interessante fazer é participar de todas as lives que posso, como se fosse uma estreia teatral. Faço com dedicação esse contato. Outra coisa é que estou fazendo a minha peça, Autobiografia Autorizada, diretamente do Teatro PetraGold, no Rio de Janeiro. Está sendo uma experiência absolutamente inovadora. A peça está funcionando muito bem dentro dessa situação de uma transmissão ao vivo, com todo o frisson de dentro do teatro, com cenário, figurino e tudo o mais.

2) Ninguém consegue acabar com a arte e a cultura, embora tentem. Nós estamos encontrando saídas, possibilidades. Estamos em uma guerra. Uma guerra contra o vírus e uma guerra contra o governo federal, que oficialmente quer destruir a cultura, que não tem pingo de consideração… Não, ao contrário, tem uma enorme consideração pela cultura, só que negativa. Mas nós vamos resistir.

3) Ficar em casa sem ser obrigado a ficar em casa (risos).

WALMOR CORRÊA, artista visual

Walmor Corrêa. Foto de Letícia Remião/Divulgação

1) No primeiro momento, eu fiquei meio perdido. Estava muito impactado com toda a situação, com a quantidade de incertezas que rondavam em cima da cabeça da gente. Fiquei em quarentena, sigo ainda, um pouquinho mais relaxado, no sentido de ficar menos tenso em relação a pegar ou não o vírus. A princípio, meus amigos que sabem que eu trabalho nessa área da arte-ciência me perguntavam curiosos como eu iria responder através do meu trabalho sobre essa pandemia. Eu já vinha trabalhando há um bom tempo no tema da exclusão, em função dessa questão mundial dos refugiados, as fronteiras que se fecharam. No primeiro mês de quarentena, eu fiquei pensando que tipo de trabalho gostaria de fazer com isso. Na verdade, não me vinha nada que me parecesse razoável para iniciar um projeto, me parecia tudo um pouco bobo e sem sentido, porque emocionalmente eu ainda estava abalado, sei lá. Resolvi então deixar acontecer, já prevendo que, como todo o meu trabalho é um relato da minha vivência, resolvi esperar e deixar passar aquele primeiro vez. De repente, eu me vi pintando grandes telas. Primeiro, pintei uma tela com aves e bichos que, de uma certa forma, já trabalhei quando morava em Porto Alegre, mas que me remetiam muito à memória da saudade, esse olhar pela janela, para trás. A gente fica mais nostálgico quando está em isolamento. Onde eu moro hoje, em São Paulo, tem uma árvore muito grande na frente das minhas janelas, então eu vejo passarinhos o tempo inteiro. Eu comecei a refletir um pouco esse pensamento como notas musicais, no sentido de encantamento com o tempo que eu tinha para pensar só no que gostaria de produzir. Todos os outros problemas e compromissos ficaram adiados, eu tinha o tempo inteiro para pensar no meu trabalho unicamente. Então, iniciei uma série, já estou na quarta obra, que é reflexo desse olha pelas janelas.

2) A arte é sinônimo de resistência, os processos chegam e vão, ficam as reflexões que pertencem à poética de cada artista, que na maioria das vezes são fortalecidas pela eterna “insistência” de continuidade. Muitos artistas de diferentes áreas estão passando por dificuldades, o que me deixa muito angustiado. Sobretudo o pessoal do teatro e da música, que precisa de grandes concentrações de gente. Nós, pintores e artistas visuais, ainda temos o tempo para maturar enquanto estamos em quarentena. Se bem que eles também têm… Mas não acredito que isso da criação vá mudar. A cultura, sim, como é difundida e consumida, vai mudar. Mas é difícil prever o futuro.

3) Com toda a certeza, eu quero ir até Porto Alegre. Preciso viajar para dar minha respirada. É onde eu me reabasteço.

BÁRBARA PAZ, atriz, diretora e apresentadora de TV

Bárbara Paz. Foto Bob Wolfenson/Divulgação

1) Acabei fazendo um diário visual. Foi criado nos primeiros dias de quarentena. Um vídeo por dia. Queria falar sobre a minha solidão. A volta a casa, que há tanto tempo não retornava. A minha casa interna. E tive que deparar comigo o tempo inteiro. Com um grande espelho 360º: para todos os lados onde olhava só tinha eu. Todos os meus outros eus ficaram lá fora. Foi uma longa viagem de volta à essência. O grande companheiro dessa pandemia foi o celular, as redes sociais, a internet, que, ao mesmo tempo que te sufoca, não te deixa solitária. Acabou surgindo um edital do Itaú Cultural que acabei inscrevendo dois vídeos, e fui contemplada. O valor que recebi do edital foi doado inteiramente para o Grupo TAPA de teatro. Fiz também um sarau de poesia, entrei em muitas campanhas para arrecadar alimentos e produtos para as pessoas mais necessitadas. Não parei um minuto. Não consigo, estou a milhão dentro de mim. Além desses vídeos, fiz uma performance no Quarentena Festival, da companhia de teatro Os Satyros, com dois textos do Peter Handke, ganhador do Nobel de Literatura no ano passado: Insulto ao Público e Auto-Acusação. E foi lindo, foram 30 minutos ao vivo, sozinha, mas senti como se estivesse no palco. Meu coração acelerou, deu um frio na barriga como se eu estivesse na coxia entrando em cena. E quando acabou eu escutei os aplausos. Só que a verdade é que eu estava sozinha em casa, com uma lanterna e um computador.

2) Está se transformando. Pelo que estou entendendo, teremos uma tela de celular e computador por um bom tempo para dividir nossas criações. Isso não quer dizer remuneração. É arte por respiro. Acredito que os teatros vão voltar, mas com muito menos lugares. Distanciamentos, assim com está acontecendo na Europa já. Cinema também, já está voltando pelos drive-in, aos poucos. Acredito que este será um ano transformador para todos. Mas sou otimista, para os que ficarem, vamos sair melhores seres humanos. Muitas campanhas para ajudar a todos os profissionais das artes, do teatro e do cinema estão sendo feitas, a classe está unida. Apesar desse governo desgovernado. Temos um longo curto ano pela frente.

3) Pisar no palco. Estar no teatro. Sentir o cheiro da coxia, do camarim, das pessoas esperando o espetáculo começar.

JOSÉ BECHARA, artista visual

José Bechara. Foto Arquivo Pessoal

1) Todos os dias vou ao ateliê. Assistentes em casa e eu lá, trabalhando sozinho. A única coisa que estranho é a dificuldade para comprar os materiais. Fora isso… Bem, de modo geral, meu trabalho sempre exigiu isolamento. Uma coisa boa é que percebo uma aproximação mais franca com o trabalho, sem dispersões. Ficamos todo o tempo um de frente para outro nos observando, negociando novos termos. Nós dois – eu e o trabalho – queremos a mesma coisa, e com o tempo que temos agora, dialogamos com mais paciência.

2) Acho que afeta como qualquer evento de grande impacto social afeta. Nem mais, nem menos. Entendo que a arte, digamos processos criativos, sejam afetados pelos acontecimentos ao redor, pelas condições em que vive a sociedade. E não creio em mudanças significativas de comportamento. A humanidade já passou por experiências mais devastadoras e não mudou. Celebrações, reuniões e encontros físicos são necessários, e acredito que em algum momento teremos essa experiência restaurada. E quanto ao futuro, seja qual for estaremos produzindo arte e pensamento crítico. Estamos aqui pra isso.

3) A primeira coisa, olhar devagar pela porta semiaberta e me certificar de que a coisa passou mesmo. Depois, acho que sair e perambular pelas ruas despreocupadamente, simplesmente.