Exposição imperdível: Lia Menna Barreto no MARGS

 

Segue em cartaz até o dia 8 de agosto no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), em Porto Alegre, a exposição Lia Menna Barreto: A boneca sou eu – Trabalhos 1985-2021. A mostra traz a público a produção e trajetória de uma das mais notáveis artistas entre a chamada Geração 80 no Rio Grande do Sul, apresentando dezenas de obras que totalizam centenas de peças em exibição – traçando um
panorama da trajetória de mais de 30 anos de uma produção pautada pela liberdade de trânsito e contaminações entre múltiplas linguagens e materiais, na intersecção entre arte, vida e cotidiano.

Com curadoria de Francisco Dalcol, diretor-curador do MARGS, e Fernanda Medeiros, curadora-assistente, é a maior mostra já realizada da artista e a primeira a reunir um conjunto de obras tão extenso e abrangente de sua carreira. A ampla exposição ocupa todos os espaços expositivos do primeiro andar do MARGS: as três galerias das Pinacotecas, as Salas Negras e a Sala Aldo Locatelli, além do foyer à entrada do museu.

 

Lia Menna Barreto. Foto: Divulgação

 

Lia Menna Barreto: A boneca sou eu – Trabalhos 1985-2021 traz a público objetos, esculturas, sedas, instalações, pinturas e desenhos realizados desde 1985, além de documentos e registros visuais que complementam e ampliam a experiência. Junto a obras do acervo do MARGS, a mostra conta com empréstimos da Fundação Vera Chaves Barcellos (FVCB), do Museu de Arte Contemporânea do RS (MAC-RS) e de coleções particulares.

Um dos destaques é um trabalho em site specific de grande escala e inédito, composto por centenas de peças e objetos. Intitulado Colar e instalado na galeria central das Pinacotecas, foi realizado especialmente para a exposição. Nas Salas Negras, é apresentado Ratão (1993), uma das obras mais emblemáticas do acervo do MARGS, junto a Diário de uma boneca (1998), conjunto de mais de 400 pequenas bonecas feitas em costura de trouxas de pano, restos de tecido e pedaços de outras bonecas. A primeira delas, a artista fez para a filha de então três anos; as demais foram surgindo uma a cada dia, sem que falhasse um dia sequer ao longo de mais de um ano, como um registro da condição da maternidade.

 

“Diário de uma boneca”. Foto: Leopoldo Plentz/Divulgação

 

Já na Sala Aldo Locatelli, a série Ordem noturna (1996) ganha um resgate histórico com a exibição pela primeira vez de boa parte do conjunto das obras integrantes. E no foyer à entrada do museu, o público pode conferir durante o período expositivo o processo de desenvolvimento do trabalho Máquina de bordar (1997), que consiste em um sistema de produção de bordado a partir do plantio e germinação de sementes de milho.

Colocadas sobre tecido úmido, dentro de bandejas e sendo regadas, as sementes brotam com o passar dos dias, iniciando-se um
bordado a partir das raízes. Semanas depois, com as plantas e raízes desenvolvidas, inicia-se o processo de secagem, e a parte bordada é retirada da bandeja e armazenada ao lado. Em seguida, o processo recomeça, dando início a um novo bordado.

 

Imagem de arquivo da obra “Máquina de Bordar”. Foto: Sergio Sakakibara/Divulgação

 

A gente conversou com os curadores Francisco Dalcol e Fernanda Medeiros sobre a baita exposição monotemática dedicada a Lia Menna Barreto:

 

A expografia da mostra sugere um passeio por uma espécie de parque temático, ressaltando o viés lúdico dos trabalhos de Lia Menna Barreto – sem ignorar os aspectos psicanalíticos, irônicos e mesmo perversos dessa obra. Como foi concebida a montagem da exposição?

A expografia foi um dos aspectos mais desafiadores e, ao mesmo tempo, mais definidores da exposição. E isso parte da compreensão das características que são próprias ao trabalho da Lia, e que procuramos levar para o pensamento que estrutura e fundamenta a exposição. Inicialmente, lidamos com a própria noção de montagem que está nas obras, uma vez que boa parte da produção da artista tem como operação básica a apropriação de brinquedos infantis, bonecas de plástico, bichos de pelúcia e animais de borracha, mas intervindo neles a partir de procedimentos nos quais os corta, secciona, desmonta e prensa a quente, seguindo-se a reconstrução do todo a partir da remontagem de suas partes. Esse procedimento de desmonte e nova montagem faz com que suas obras escapem à categorização de objeto uno e acabado, caracterizando-se, ao contrário, pela mutabilidade e não permanência, com desdobramentos sempre em aberto, múltiplos e até mesmo imprevisíveis. Assim, refletindo sobre os procedimentos de montagem contidos nas obras, passamos a explorar a espacialização desses trabalhos na exposição também a partir da noção de montagem, entendendo que poderia se dar segundo possibilidades sempre variadas e infindáveis de apresentação e configuração, a depender da proposta e da especificidade do espaço. Na organização da mostra, evitamos criar núcleos segundo critérios convencionais de agrupamento como tema, forma, material ou cronologia, procurando propor diálogos e atravessamentos mais desafiadores, como que compondo um conjunto de obras coladas em relação e em cena na exposição. E esse processo todo se deu total e integralmente em interlocução da curadoria com a artista, em um trabalho de escuta, troca e colaboração, que começou no ateliê e se efetivou no espaço expositivo com as escolhas, opções e decisões durante o processo de montagem.

 

Comentem um pouco a respeito da grandiosa obra em site specific Colar, por favor.

Colar é um dos destaques da exposição. Trata-se de uma obra site specific – ou seja, inédita e concebida especialmente para a exposição e o espaço em que é apresentada. Ocupa uma parede que tem cerca de cinco metros de altura por 11 de largura, sendo composta por centenas de peças e objetos produzidos anteriormente por Lia, assinalando um procedimento também de montagem em que a artista se apropria das próprias obras para compor um novo e outro trabalho. Colar foi pensada para ocupar a galeria central das Pinacotecas do MARGS, e partir disso podemos dizer que o restante da exposição foi se estruturando em torno dela.

 

Na parede ao fundo, “Colar”, de Lia Menna Barreto. Foto: Raul Holtz/Divulgação

 

Ao utilizar e manipular bonecas, brinquedos, bichos de pelúcia e de borracha, a artista aborda o imaginário infantil. Como as crianças têm reagido à exposição?

Isso tem sido bastante curioso e mesmo surpreendente, pois muitos adultos têm comentado que a exposição pode ser capaz de assustar e até amedrontar as crianças. Ao contrário disso, temos percebido que as crianças têm ressignificado esse tipo de expectativa adulta ao visitar a exposição, surpreendendo-nos quanto à recepção desse universo de formas tão disformes e com a forma como lidam no contato físico e presencial com as obras. Isso nos tem apontando para o quanto nós, adultos, nos ressentimos de perder esse senso de liberdade, curiosidade e abertura ao desconhecido que cultivamos durante a infância.

 

“Os Três Ursinhos e as Meninas”. Foto: Jose Eckert/Divulgação

 

Como vocês situam a trajetória de Lia Menna Barreto dentro do panorama geral da arte brasileira contemporânea?

Lia é uma das mais notáveis artistas entre a chamada Geração 80 no Rio Grande do Sul, tendo se tornado já desde os anos 1990 nome destacado e com ampla inserção no circuito de arte contemporânea brasileira e mesmo internacional. Podemos dizer que sua produção se insere em um contexto de efetiva consolidação das linguagens e práticas artísticas contemporâneas, após as conquistas da geração precedente com as vertentes conceituais dos anos 1960/70.

 

A mostra integra o programa História do MARGS como História das Exposições. Vocês podem explicar o conceito desse projeto?

A atual gestão do MARGS, iniciada em 2019, adotou o protagonismo de projetos expositivos com realização própria do museu, os quais são desenvolvidos pela Direção e suas equipes, além de profissionais e instituições colaboradores. Nessa orientação, a Direção Artística desenvolve um programa expositivo com uma linha de ação institucional fundamentada e orientada por critérios definidos como prioritários. Assim, foram implementados até aqui quatro programas expositivos, cada qual como uma finalidade e orientação específicas. Um deles se intitula História do MARGS como História das Exposições, programa com o qual se trabalha a memória da instituição de uma maneira inovadora, abordando a história do museu, as obras e constituição de seu acervo e a trajetória e produção de artistas que nele expuseram, resultando em projetos curatoriais que revisitam, resgatam e reexaminam episódios, eventos e exposições emblemáticas do passado do MARGS, de modo a compreender sua inserção e recepção públicas. Como parte do programa História do MARGS como História das Exposições, a exposição Lia Menna Barreto: A boneca sou eu – Trabalhos 1985-2021 assinala um resgate e mesmo um reencontro da história do MARGS com a história da artista. Em 1985, recém-formada pelo Instituto de Artes da UFRGS e em pleno início de carreira, Lia teve a oportunidade de realizar no museu a sua primeira individual. A exposição ocorreu pelo projeto Espaço Investigação, que promoveu à época uma série de exposições de jovens artistas. Ao dar lugar no MARGS a pesquisas e propostas artísticas contemporâneas, o Espaço Investigação é sempre lembrado por ter sido responsável pela projeção de muitos artistas então emergentes. Agora, passados 36 anos, Lia volta a apresentar uma individual no museu.

 

Imagem de arquivo de “Jardim da Infância”. Foto: Sergio Sakakibara/Divulgação

 

Lia Menna Barreto: A Boneca Sou Eu – Trabalhos 1985-2021

Curadoria de Francisco Dalcol e Fernanda Medeiros
Em exibição até 8 de agosto de 2021
Onde: MARGS (Praça da Alfândega, s/nº – Centro Histórico – Porto Alegre)
Visitação: De terça-feira a domingo, das 10h às 19h (último acesso às 18h), sempre com entrada gratuita