Gal Oppido apresenta exposição inspirada em arte erótica japonesa

“Serenos e Ofegantes” (2020), de Gal Oppido/Divulgação

Fotógrafo ensaísta e expoente da arte contemporânea brasileira, Gal Oppido é um ávido pesquisador da arte erótica japonesa conhecida como shunga. Em suas fotografias, aquarelas, xilogravuras, obras em suportes diversos, o corpo é fonte provedora de liberdade e sensualidade, inquietação e mistérios, tal qual um lugar a ser desbravado. Uma síntese inédita desta aproximação com a cultura japonesa pode ser vista na exposição Shunga: Serenos e Ofegantes, em cartaz até 20 de fevereiro na Galeria Lume (Rua Gumercindo Saraiva, 54, Jardim Europa), em São Paulo.

Durante os quase três séculos do período Edo, o Japão vivia um momento de isolamento. Foi nessa época que nasceu a shunga, a arte erótica que trazia à sociedade uma espécie de cartilha sexual, com ilustrações dos mais diferentes ritos sexuais de características gráficas e cores vivas criadas pelos principais artistas desse período.

Para Oppido, que teve o primeiro contato com a shunga no início da década de 1970, essa representação vai muito além dos ritos sexuais: “É praticamente um estado de percepção”. E é o que afirma por meio da seleção de obras que compõem a exposição.

Entre os destaques da mostra, está a série Serenos e Ofegantes. São ensaios fotográficos com performers com diferentes corpos e etnias, que ora aparecem nus ou seminus, ora apresentam-se trajando quimonos tradicionais japoneses.

 

“Serenos e Ofegantes” (2020), de Gal Oppido/Divulgação

As vestes são criações inéditas e feitas para exposição: algumas projetadas por Oppido e outras por fashion designers como Alex Kazuo, designer de ascendência nipônica e aclamado pela crítica por seu estilo minimalista, Mauro Spolaor e Caio da Rocha. Há também um quimono emblemático para os amantes da moda, inspirado nos trajes japoneses típicos do século 18 e já usado em coleção do designer francês Yves Saint Laurent, que será exibido ao público no espaço expositivo.

Já na série Le Petit Tokaidò de Hirochige, o artista apresenta 56 xilogravuras em volume sanfonado no qual desenvolveu releitura no verso de cada imagem, mantendo parcialmente sua estrutura paisagística e unindo-as pictoricamente. A convite de Oppido, a artista Catarina Gushiken contribuiu com dez intervenções inéditas de suas caligrafias imaginadas a partir de fotografias de Gal.

 

“Le Petit Tokaidò de Hirochige” (2020), de Gal Oppido/Divulgação

Na abertura da exposição, aconteceu o lançamento do livro Intoxicações Poéticas da Carne (N-1 Edições). A publicação documenta um encontro ficcional entre Gal Oppido e o icônico escritor japonês Yukio Mishima (1925 – 1970).

“Tudo que parece ter importado para Mishima está aqui: a fixação pelos samurais, a obsessão pelos pilotos kamikaze (deuses do vento), os corpos olímpicos, os vestígios de cenas clássicas de cinema, músculos, máscaras, souvenirs made in Japan, estátuas gregas iluminadas por rasgos de sol, a evolução desde a África devorada, sacrifícios renascentistas, uma arrebatadora experiência pop Hokusai-Oppidiana e, ainda, uma cartografia anárquica que parte do nascimento da modernidade até as tecnologias excêntricas de corpos, mídias, cidades e guerras”, reflete Christine Greiner, escritora, curadora e professora do Departamento de Arte na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em texto para o livro.

 

“Lambe-lambe Yukio Mishima” (2020), de Gal Oppido/Divulgação

Não ao acaso, o evento ocorreu em 25 de novembro, data que marcou o 50º ano da morte de Mishima em um ritual suicida conhecido como seppuku, entendido pelo escritor como uma ação artística. Para além disso, o artista levou lambe-lambes com a imagem de Mishima para as ruas do bairro da Liberdade, em São Paulo.

O paulistano Gal Oppido é arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, fotógrafo desde meados da década de 1970, músico – integrou o Grupo Rumo – e desenhista. Expondo desde 1981, sua obra integra os acervos de instituições como Masp e MAM-SP. Em 2016, recebeu o prêmio de melhor exposição da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) pela individual Sentidos da Pele, realizada na Galeria Lume.

“Serenos e Ofegantes” (2020), de Gal Oppido. Escultura de Kimi Ni. Foto: Divulgação

 

“Serenos e Ofegantes” (2020), de Gal Oppido/Divulgação