Rapper indígena Kunumí MC apresenta o single “Moradia de Deus”

Kunumí MC. Foto: Olívio Jekupé/Divulgação

Depois da grande projeção do vídeo de Xondaro Ka’aguy Reguá, o rapper indígena Kunumí MC, de 19 anos, que vive na Aldeia Krukutu (SP), lança mais um single: Moradia de Deus, que também ganhou clipe, dirigido por ele. A faixa foi produzida através do apoio do Programa Convida, que o Instituto Moreira Salles lançou durante este período de pandemia – e que já apoiou mais de 125 artistas por todo o país.

A música partiu do refrão cantado em guarani “Jaikó, jarekó oó / Jaikó, jarekó tekó” – em português, “Vivemos e temos casa / Vivemos e nossa cultura está viva” –, que Kunumí conta ter escrito inspirado pelos irmãos, DJ Tupan e Jekupé Mirim. “Com essa música, eu tento levar força para os meus irmãos, canto pra eles este trecho, por exemplo: ‘Na moradia existe uma família / quem protege é você e Deus quem te fortalece / território ancestral viver e crescer com alto astral / vim passar uma visão com respeito, na moral / O nosso corpo, moradia da nossa alma / e numa vida, alegria é o que nos acalma’”.

Além disso, ele diz que o conselho que dá também vale para ele próprio: “Às vezes, a gente sabe de muitas coisas, mas é bom ter alguém para nos aconselhar. E quem me aconselha é o meu espírito, meu sentimento. Essa música é bastante espiritual. E vale como uma dica para todos os meus irmãos e irmãs, pelo mundo todo”.

Kunumí MC e seu filho, Christian Erick. Foto: IMS/Divulgação

Kunumí revela também que uma semana antes do convite do IMS, ele e sua companheira, Kamilla Silva, já estavam pensando na música, com o tema sobre moradia. “Cada um tem a sua própria casa e lá existe uma família, né? E família é um projeto de Deus. Na moradia, inclusive, está sempre Ele guiando, protegendo. E o nosso corpo também é a nossa moradia, né? Assim como o planeta também é e no final, tudo é moradia de Deus”.

Moradia de Deus fala também sobre a necessidade de preservar a natureza sob a visão de um indígena nativo. Uma mensagem muito importante em tempos que as alterações climáticas vêm causando graves consequências, com fortes tendências de piorar em um período curto de tempo, caso nada seja feito.

Kunumí também assina a direção do clipe, que foi filmado na Aldeia Krukutu e contou com captação de imagens por ele, sua companheira Kamilla Silva, DJ Tupan e também pelo seu pai, Olívio Jekupé, responsável pela poesia de abertura da canção. A finalização do vídeo ficou por conta de Joul Matéria Rima e Nicolas MC, e a produção musical é de Agapê.

A capa do single traz um desenho assinado por Jaider Esbell, que participou da primeira etapa do projeto do IMS. Artista multimídia, indígena makuxi da Terra Indígena Raposa – Serra do Sol, Jaider vive e trabalha em Boa Vista, onde mantém a Galeria Jaider Esbell de Arte Indígena Contemporânea. É produtor, curador e livre pesquisador do Sistema da Arte Indígena Contemporânea.

Capa do single “Moradia de Deus”, com ilustração de Jaider Esbell e design por Leonardo Sandi, da @p82agencia. Divulgação

Com dois discos já lançados, o EP de estreia, My Blood Is Red (2017) e o álbum Todo Dia É Dia de Índio (2018), além de músico, Kunumí também é escritor e conta que começou a escrever desde pequeno. Aos seis anos viu florescer a vontade de escrita muito influenciado pela mãe, Maria Kerexu, e pelo pai, Olívio Jekupé – que é escritor e já lançou 19 livros de literatura nativa, que vão desde poesia, contos indígenas, romance a textos críticos, como o último A Invasão, que narra a chegada dos portugueses no Brasil.

Aliás, Kunumí já tem dois livros lançados também: um com o irmão, Tupã Mirin, chamado Contos dos Curumins Guaranis, e outro que ele escreveu sozinho, Kunumi Guarani.

O livro de poesias do seu pai, 500 Anos de Angústia, foi o que mais impulsionou Kunumí a começar a compor. Inspirado pela poesia que leva o título do livro, ele escreveu uma também: “Decidi transformar essa poesia numa música e percebi que parecia muito com o rap, porque era uma letra de protesto e tinham muitas rimas. Eu já gostava muito de rap também, então, decidi ser um MC e me apelidei de Kunumí MC”. E completa: “Meu rap é diferente por ser indígena e também pela melodia e o ritmo de cantar, que é próprio meu, além disso, canto em guarani”.

Sobre as influências musicais, Kunumí MC aponta outros artistas indígenas, como o grupo Brô MC’s, o rapper Oz Guarani, além do grupo Racionais MC’s e de Criolo – com quem, inclusive, gravou a música Demarcação Já – Terra Ar Mar.

Assista ao clipe de Moradia de Deus: