Projeto online de arte colaborativa divide valor pago por obras entre artistas participantes

Obras vendidas pelo Projeto Quarantine abrangeram uma ampla diversidade de formatos

Em um momento em que o acesso físico a expressões artísticas está suspenso, a internet surge como ferramenta importantíssima para que artistas, produtores e profissionais da cultura se mantenham ativos e participantes de um mercado vivo. São essas iniciativas colaborativas, que unem pela internet pessoas em um objetivo em comum, que a seção Tá na Rede vai destacar.

É o caso do Projeto Quarantine, idealizado logo nos primeiros dias de pandemia e lançado em abril pelas artistas Lais Myrrha e Marilá Dardot, pela curadora Cristiana Tejo e pela fundadora da plataforma 55SP Julia Morelli. A ideia é reunir artistas – e foram 46 nomes de todo o país – em uma espécie de cooperativa de artistas do Brasil, em que todos os trabalhos têm o mesmo preço e o que for vendido tem seu valor repartido igualmente entre os colaboradores.

“Pensamos e chegamos à ideia de um experimento coletivo de re-imaginação de modelo econômico para as artes, Convidamos artistas de todas as regiões do país, de diferentes gêneros, raças e momentos de carreira, a propor trabalhos de acordo com as condições de quarentena (em casa, com os materiais e instrumentos disponíveis. As obras seriam pensadas de modo que pudessem ser enviadas digitalmente e realizadas (baixadas, impressas e/ou executadas) pelxs compradorxs também em condições de quarentena. Os trabalhos só seriam visualizados após a compra”, explicam as organizadoras, em entrevista por e-mail.

Entre os nomes participantes, estão Ana Dias Batista, Arissana Pataxó, Fabio Tremonte, João Loureiro, Maurício Ianês, Romy Pocztaruk, Sara Não Tem Nome e Yuri Firmeza, que, em menos de cinco meses, conseguiram vender todas as obras produzidas no período, por R$ 5 mil cada uma, ajudando a manter cada um dos artistas participantes com renda durante a quarentena. Segundo as organizadoras, o projeto foi recebido com empolgação entre os artistas.

“A receptividade foi maravilhosa. Todxs receberam a proposta com muito entusiasmo e otimismo. Nenhumx dxs artistas que aceitaram participar do projeto perguntou quem mais estava participando, por exemplo. O caráter solidário e cooperativo foi compreendido imediatamente por todxs”, ressaltam, destacando ainda a dificuldade de se manter em um momento de crise não só sanitária, mas econômica e política:

“O desmonte de políticas públicas para a cultura agravou bastante o impacto da pandemia para os artistas. As medidas emergenciais de instituições culturais demoraram para acontecer e mesmo assim não atingiram muitos artistas. O Quarantine foi uma das primeiras iniciativas no Brasil a se voltar para xs artistas. A maior parte dos projetos pedem obras a artistas para serem leiloadas ou rifadas, mas não levam em consideração a própria situação de precariedade. Nosso foco era possibilitar ao menos para um grupo de artistas um mínimo de recurso material para enfrentar a tempestade que se instalava… Neste sentido, o projeto cumpriu seu papel”.

Recentemente, as organizadoras comemoraram a venda das últimas obras produzidas, em um projeto que contou com o apoio de galeristas e instituições de arte. Para elas, a iniciativa pode servir de inspiração para situações de crise como a atual, e também como uma reflexão sobre o sistema de vendas do próprio setor:

“As vendas não estão mais acontecendo, encerramos o ciclo com uma aquisição por parte do SESC SP e com isso tivemos a alegria de vender o projeto todo. O Quarantine é um experimento coletivo de reimaginação de modelo econômico para as artes que pode continuar, porém não necessariamente no mesmo formato que foi imaginado para o primeiro momento do isolamento social.”