Eliane Potiguara e a literatura indígena: histórias que se confundem e se explicam

Com seus poemas-pôster e cartilhas de alfabetização, Eliane Potiguara deu início ao que iria se chamar de literatura indígena nos anos seguintes

Por Gustavo Foster

Se alguém se interessa pela história a pela realidade do Brasil, um bom ponto de partida para entender esse complexo pedaço de terra do sul do mundo é compreender os seus povos originários. E é esse o legado que Eliane Potiguara,  escritora, poeta, ativista, professora, empreendedora social de origem étnica potiguara, vem deixando: o de reflexão sobre as lutas dos povos indígenas.

“Minha militância sempre foi rebuscada com a literatura. Eu faço política, mas vou fazendo também os meus poemas”, resume a escritora e ativista, que fará 70 anos no dia 29 de setembro e já foi nomeada Embaixadora Universal da Paz em Genebra, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural do Brasil, teve seu nome indicado pelo Círculo Universal dos Embaixador da Paz para trabalhar a favor da paz no mundo e participou da elaboração da Declaração Universal dos Povos Indígenas na ONU. Ela completa a afirmação anterior fazendo uma ponderação: “Já fui criticada por estar me tornando uma pessoa dura, amarga, diferente do que eu era. E eu não posso, porque sou mais artista do que política”, ressalta.

O trabalho artístico de Eliane, que é uma extensão (ou uma fonte) de sua luta política, começou logo no final da década de 1970, quando o que hoje se convencionou chamar de “literatura indígena” ainda não existia como conceito estabelecido, apenas como produção interna, sem publicações ou divulgação. Sua confecção de poemas-pôster e de cartilhas sobre a história e a educação de seus semelhantes tornou-se um marco para a literatura indígena e inspirou autores que viriam a seguir – mais de 100 membros de povos originários passaram a escrever depois dela, calcula.

Entre as obras de Eliane Potiguara, destacam-se A Terra é Mãe do Índio (1989), Metade Cara, Metade Máscara (2004), os infantojuvenis O Coco que Guardava a Noite (2004), O Pássaro Encantado (2014) e A Cura da Terra (2015), além da cartilha de alfabetização Akajutibiro: Terra do Índio Potiguara (2004). Segundo a autora, livros que são retratos de vivências próprias: “Eu conto na minha literatura as dores dos povos indígenas, das novas avós, tataravós, da nossa ancestralidade. Quando dou um exemplo meu de vida, é um exemplo das mulheres que sofrem discriminação social, racial, estigmas nas cidades, nos lugares que vão buscar alimentos. Eu tinha esse conhecimento dentro da família, então a minha militância partiu de dentro de casa. Partiu do problema vivenciado, de uma ilusão, de um sonho.”

Sony Fiorotti, curadora do Projeto Panton Piá, que desde 2007 registra e analisa narrativas orais de indígenas de Roraima, explica que, apesar de expressões orais e escritas estarem sempre presentes na realidade dos povos originários, o conceito de literatura passou a vigorar a partir do contato com populações não-indígenas e, no caso específico do Brasil, a partir da Constituição de 1988.

“A literatura indígena começa a ganhar feições ao mesmo tempo em que as discussões acerca da constituição identitária do sujeito contemporâneo ou pós-moderno também passam a ser recrudescidas em razão do processo de globalização. No Brasil, um desses reflexos é justamente a promulgação da Constituição de 88, a constituição cidadã, que teve como pronunciamento de Ailton Krenak um marco decisivo para o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas dentre outros aspectos que promovem mudanças expressivas na sociedade brasileiraTanto que é, na década seguinte, ocorre o chamado boom da literatura indígena, que dentre outros temas acabam trazendo também essa discussão acerca das identidades como podemos perceber, por exemplo, em Meu Avô Apolinário, de Daniel Munduruku. Assim, temos um conjunto de processos, em particular de democratizações de ensino e pesquisa na educação brasileira, que fazem com que essa chamada literatura indígena não seja mais considerada apenas infantil e juvenil”. 

Ainda que os quase 70 anos dificultem as viagens internacionais e tornem mais trabalhosa a escrita, Eliane Potiguara segue em plena produção: está com dois livros praticamente prontos. Um reúne crônicas e contos que retratam tanto as andanças pelo mundo quanto a realidade da comunidade, o outro compila poesias inéditas escritas durante a produção de Metade Cara, Metade Máscara. Enquanto mantém sua escrita com vigor, a autora vê as gerações seguintes à sua mantendo – e expandindo – a luta através da arte.

“A juventude está mais participativa”, aponta. “Temos uma articulação importante pelo Brasil inteiro, um grande número de jovens participando. Isso é fruto da nossa militância e da conscientização que aconteceu nos últimos anos. Trabalhei muito pelo protagonismo indígena brasileiro, e a partir da Constituição houve um levante muito importante sobre essa temática de assumir a identidade indígena, torná-la bem visível no cenário nacional. A nossa luta segue. Eu vou deixar muito exemplo por aí”, alegra-se.

Conhecer a produção literária indígena é um caminho sem volta – uma lista de autores para você se aprofundar

Se a contagem é de cerca de 100 autores indígenas, há uma infinidade de acessos à realidade e à produção cultural de povos originários. Nomes como Davi Kopenawa, Daniel Munduruku e Ailton Krenak vêm ganhando destaque e são lidos não só por estudiosos. Eliane Potiguara destaca essa produção recente:

Kaká Werá trabalha muito bem a questão da espiritualidade, da ancestralidade. Daniel Munduruku, Marcos Terena (o “Índio Aviador), Aílton Krenak são ótimos. Muitas mulheres têm escrito, como Fernanda Kaingáng, Marcia Kambeba, Julie Dorrico, Auritha Tabajara, Marcia Mura. Temos também muitas mulheres homossexuais que estão escrevendo, na luta contra a homofobia. Isso é fabuloso. Agora temos o Olívio Jekupé, que é superimportante, como um pioneiro na literatura, junto com Kaká Werá. Daniel Cabixi, que escreveu um trabalho maravilhoso sobre educação indígena. Nós temos uma gama de pessoas que fizeram parte desse início do movimento. Sou uma das mais velhas, tenho 70 anos, os outros são mais novos que eu, e até chegar a Auritha e a Julie, que são umas das mais novas”, lista. 

Sony Fiorotti também apresenta sua lista de iniciativas:

“A escritora e doutoranda da UFRGS Julie Dorrico tem criado páginas nas redes sociais de incentivo à leitura de escritores e escritoras indígenas, assim como tem promovido lives muito interessantes em que discute literatura indígena. Já na seara dos autores sempre indico a leitura de Graça Graúna, Ailton Krenak e Davi Kopenawa. Acho que são leituras fundamentais. Além da poesia, que considero simplesmente maravilhosa, Graça tem um trabalho excelente chamado Contrapontos da literatura indígena contemporânea, que ajuda muito a conhecer e pensar sobre essa literatura que vem sendo produzida. Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak nos espanta com um pensamento que beira à genialidade. E Davi Kopenawa em A Queda do Céu é outro assombro que nos apresenta a essa forma de ser e se fazer ouvir não apenas em dois mundos, mas em outros como bom xamã que é. Ainda indico Cristino Wapichana, que tem feito um trabalho muito interessante com narrativas não apenas do seu próprio povo como de outros como o Anambé, do Pará”.