O ano da esperança: artistas contam suas resoluções para 2021

O artista visual urbano Kobra conta que deixou pendentes cerca de 40 projetos no Brasil e no Exterior (Arte sobre foto: Paulo Múmia / Rio2016)

Todo artista vive de símbolos, e a passagem de um ano é sempre um momento de transformação simbólica – principalmente no momento em que deixamos para trás um ano quase totalmente pandêmico, em que precisamos nos isolar e interromper todos os nossos planos para evitar a propagação do coronavírus. Mas 2021 chegou trazendo esperança, e, para artistas que precisaram interromper sua produção, pode significar um momento de resoluções e novas ideias.

A pandemia zerou os recursos financeiros de 48,88% dos profissionais da cultura, segundo uma pesquisa organizada pelos pesquisadores Pedro Affonso, Rodrigo Amaral e André Lira, com apoio da UNESCO no Brasil, Sesc, USP, Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura e treze Secretarias Estaduais de Cultura, em que foram ouvidas 2.667 pessoas, entre junho e setembro de 2020, em 472 municípios. Setores como artes cênicas, feiras e festivais, moda, cultura, hip-hop e música foram os que mais sofreram em meados do ano passado. Os dados registrados até setembro do ano passado ainda mostravam que 44% das empresas do setor haviam demitido todos os seus funcionários.

Apesar de a pesquisa mostrar também que a desesperança era presente entre os profissionais das artes, iniciativas como a Lei Aldir Blanc, que repassou recursos emergenciais para o setor, oferecem um fôlego financeiro para a área. Mas, enquanto isso, os artistas se viram como podem e já fazem planos para o momento em que a retomada das atividades for permitida.

A vida do artista em home office

Para o DJ Fredi Chernobyl, que divide sua atuação entre os palcos, como guitarrista da banda Comunidade Nin-Jitsu, as picapes, como DJ, e o computador, quando atua no setor de produção musical, a quarentena representou a suspensão de parte dessas atividades. Chernobyl, no entanto, usou o tempo em casa para produzir material inédito e planejar os próximos passos da carreira.

“A pandemia foi muito criativa, no sentido de usar o cérebro para dar valor a tudo. O músico precisa fazer música, e quando não tem palco, é hora de criar, não de reclamar. Mesmo com dificuldades financeiros, sento 8 horas por dia no meu home studio para criar. Faço produção para artistas como Keila, Daniel Peixoto, Sambary, MC Versa, Fish Ventura… Produzi um single com o Boça, personagem do Hermes & Renato, e regravei várias músicas da Comunidade Nin-Jitsu, como o álbum Aproveite Agora inteiro, com guitarras do Erick Endres, beats meus e baterias de Pancho”, conta Chernobyl.

Todas as faixas produzidas por ele neste período estão na playlist exclusiva publicada no portal NDM nesta semana e podem ser ouvidas abaixo. Para 2021, ele diz que já tem um EP em fase de produção e faixas inéditas da Comunidade Nin-Jitsu para serem gravadas.

Esperança no retorno seguro

Para o artista urbano Kobra, que pinta murais enormes no mundo inteiro, a quarentena foi de reflexão e mudança de hábitos. Depois de um primeiro momento em que a reclusão o deixou fortemente abalado, o street artist percebeu que podia dar um significado mais prático a suas obras. “Quem é artista vai ser artista sempre, a arte está na alma e são todos guerreiros. Muitos dos meus planos tiveram de ser alterados, mas tenho aprendido muito com a pandemia. Em meu trabalho, gosto de utilizar os murais para passar mensagens, sempre com algum tipo de objetivo, mas, agora na pandemia, venho fazendo arte com propósito. Fiz um trabalho em que arrecadamos cerca de R$ 1 milhão, que foram revertidos para duas ONGs de refugiados em São Paulo, ajudamos mais de 20 mil moradores de rua. Acabei de pintar um cilindro de oxigênio, e vamos reverter os recursos dessa obra na compra de tantos outros cilindros, cerca de 350, para ajudar pessoas em vulnerabilidade em cidades que estão passando por esse desafio da falta de oxigênio”, relata.

Como a pandemia ainda não acabou, Kobra revela que o abalo inicial deu lugar à esperança: “Foi realmente muito difícil no início, com momentos em que perdi totalmente as esperanças. Eu tinha cerca de 40 projetos internacionais, e a maioria foi cancelado ou adiado. Estou esperando que a situação se reverta o mais breve possível e, neste ano que começamos, a situação possa estar diferente, para que possamos colocar em prática esses projetos, essas obras em lugares tão importantes. Estou esperançoso agora! O momento de pânico foi tomado pela esperança. Vamos conseguir reverter isso dando as mãos, nos ajudando mutuamente, nos protegendo, usando máscara, e bola pra frente! E aguardando que as oportunidades voltem a aparecer, porque os artistas estão ansiosos por isso, esperançosos por conseguir fazer do mundo um lugar mais alegre”, diz.