Museu do Amanhã reabre na pandemia refletindo sobre os futuros possíveis

Foto: Museu do Amanhã/Divulgação

Por Roger Lerina

Fechado desde o dia 16 de março em virtude da pandemia do novo coronavírus, o Museu do Amanhã foi reaberto ao público em 5 de setembro. Foi o primeiro museu a ser reaberto na cidade do Rio de Janeiro, depois de quase seis meses sem atividades públicas. No sábado de retomada, antes da abertura das portas, formou-se uma pequena fila de visitantes à entrada do prédio de arrojadas e modernas formas concebido pelo célebre arquiteto espanhol Santiago Calatrava e localizado na zona portuária carioca.

“O Museu do Amanhã é um museu de ciências aplicadas que busca por meio de experiências interativas e audiovisuais levar seu público a refletir sobre os caminhos e desafios para os próximos 50 anos apoiados nos pilares éticos da sustentabilidade e da convivência”, explica Leonardo Menezes, gerente de Conteúdo do espaço cultural, em entrevista exclusiva ao portal Noite dos Museus.

Inaugurado em dezembro de 2015 pela Prefeitura do Rio, a instituição é um equipamento da Secretaria Municipal de Cultura, que opera sob gestão do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG). Concebido como um dos ícones arquitetônicos do Porto Maravilha, projeto de requalificação da região portuária do Rio de Janeiro, o Museu do Amanhã ocupa 15 mil metros quadrados, cercado por espelhos d’água, jardim, ciclovia e área de lazer, em uma área total de 34,6 mil metros quadrados do Píer Mauá.

Sua forma longilínea, inspirada nas bromélias do Jardim Botânico, foi projetada de maneira a se integrar à paisagem ao redor – e, especialmente, deixar visível o Mosteiro de São Bento, uma das mais importantes edificações barrocas do país. O conjunto arquitetônico do entorno ainda inclui o edifício A Noite – primeiro arranha-céu da América Latina e sede da Rádio Nacional – e o Museu de Arte do Rio (MAR), entre outros marcos.

“Em quase cinco anos, inspiramos uma série de museus internacionais a investigar o futuro, como o Futurium, de Berlim, o Climate Museum, dos Estados Unidos, o UN Live Museum, na Dinamarca. Nos tornamos o museu mais visitado da América do Sul e somos a porta de entrada para cerca de 15% do nosso público que não é habitual de museus. Conseguimos realizar, mesmo sem o apoio financeiro da prefeitura do Rio nos últimos anos, exposições temporárias, expandindo os temas e abordagens sobre os amanhãs que queremos construir, plurais e sustentáveis”, argumenta Menezes.

Leonardo Menezes. Foto: Museu do Amanhã/Divulgação

O Museu do Amanhã está seguindo o protocolo recomendado pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM, na sigla em inglês) e adotou diversas medidas de segurança sanitária, como o uso de tapetes sanitizantes, disposição de totens de álcool gel, medição de temperatura dos colaboradores e do público na entrada, sinalização de distanciamento entre as pessoas, mudança no percurso da exposição de longa duração e higienização constante dos equipamentos interativos.

Além disso, o uso das máscaras faciais é obrigatório e a quantidade de pessoas dentro do museu foi reduzida: a instituição, que chegou a ter mais de 5 mil visitantes por dia – sendo 1,2 mil simultaneamente, principalmente nos fins de semana, nos períodos de férias escolares e feriados –, reduziu esse número para 300 visitantes por hora. Os ingressos não são mais vendidos na bilheteria – há um totem na entrada para validação da compra, que deve ser feita em uma plataforma online.

“Estamos tomando todas as medidas necessárias para garantir o máximo de segurança para o público e também para nossos colaboradores. Há sinalização em todo o percurso do museu e também orientadores de público para que as pessoas respeitem o distanciamento necessário. Além disso, nossos aparelhos de ar-condicionado filtram o ar de 20 em 20 minutos“, afirma Roberta Guimarães, diretora-executiva do Museu do Amanhã.

Foto: Guilherme Leporace/Divulgação

 

Entre as medidas adotadas, está a alteração do percurso de visitação às exposições: para evitar aglomerações nos corredores, uma vez iniciada a visita, o público não poderá retornar ao ponto inicial.

Leonardo Menezes comenta a respeito de outras adaptações e novidades nos diversos espaços expositivos: “A Exposição Principal já é atualizada desde a abertura do museu. Inserimos agora imagens aéreas de grandes cidades com ruas vazias no início da pandemia, como Paris, Roma, Rio de Janeiro, São Francisco e Cairo, no interativo A Terra. No Antropoceno, atualizamos o vídeo de Crescimento da Compreensão incluindo a pandemia como um sintoma do antropoceno, devido às interferências que fazemos nos ecossistemas com o desmatamento e tráfico de animais. Gravamos novas entrevistas com duas consultoras: a bióloga Marcia Chame, da Fiocruz, falando sobre como surgem as epidemias, e a médica e ativista Jurema Werneck, da Anistia Internacional, abordando como as desigualdades sociais intensificaram os desafios durante a pandemia. Atualizamos também os interativos de Planeta e Sociedade com detalhes sobre a evolução da pandemia no mundo. Estamos em produção com uma nova instalação visual na área Humano nos Amanhãs, totalmente atualizada e com nova estética, inserindo uma cena sobre a pandemia também. Ao todo, foram cerca de 20 atualizações na exposição”.

“A pandemia do coronavírus nos ensinou o valor das nossas ações em sociedade, não só em relação ao consumo, mas também na preservação da vida, da natureza e da nossa relação com o outro. Como um museu que tem a sustentabilidade e a convivência como pilares éticos, vamos aproveitar este período para estimular ainda mais a reflexão do público sobre como chegamos até aqui e como queremos manter a nossa caminhada num planeta mais saudável”, frisa a diretora Roberta Guimarães.

Foto: Guilherme Leporace/Divulgação

Outra mudança se deu nos dias e horários de funcionamento: o Museu do Amanhã passou a abrir ao público somente de quinta a domingo, no horário de 10h às 17h. O ingresso custa R$ 26 reais, sendo R$ 13 a meia entrada. Todas as gratuidades e meias entradas previstas em leis foram mantidas.

“Por causa da pandemia, o Museu do Amanhã deixou de arrecadar cerca de R$ 6 milhões em 2020, com as perdas de bilheteria, aluguel para eventos e aluguel de loja, restaurante e café. Ainda assim, mantivemos as operações de segurança, limpeza e manutenção, além de criar uma programação online para manter a conexão com o nosso público e atualizar a exposição de longa duração”, esclarece Ricardo Piquet, diretor-presidente do IDG, instituto que faz a gestão do museu.

“O museu possui patrocinadores e foi dessa forma que conseguimos manter boa parte da equipe durante os primeiros meses da pandemia. Foram 6 meses que ficamos fechados e isso traz grandes desafios em manter times como os que atendem o público. Recontratamos a maior parte dos colaboradores para a reabertura”, acrescenta Leonardo Menezes.

Confira o restante da entrevista com o gerente de Conteúdo do Museu do Amanhã, que também assina curadorias de exposições da instituição.

Foto: Guilherme Leporace/Divulgação

O Museu do Amanhã é um dos mais visitados do Brasil. Na sua opinião, quais são os principais atrativos que motivam essa visitação intensa?

Penso que trouxemos uma forma de visita interativa que já havia sido esboçada em outros museus, mas numa escala maior de conteúdo e que busca dialogar com o mundo, para além do Brasil. Soma-se a isso a arquitetura ousada e à revitalização de toda a zona portuária do Rio. A equação deu match!

Com a pandemia, o ambiente virtual tornou-se uma alternativa explorada por eventos e experiências antes essencialmente presenciais. Como o Museu do Amanhã está atuando nas plataformas digitais? Você acredita que, mesmo depois de passado este momento de distanciamento social, os museus continuarão investindo em recursos tecnológicos como visitas virtuais e realidades aumentadas para manter seus públicos?

A presença digital dos museus veio para ficar. Tivemos um boom de atividades por conta dos museus fechados e passamos a dialogar com públicos de outros lugares, mesmo sem conhecerem o museu. Ampliar esses diálogos é valioso pois encarna o real objetivo dos museus, que é o de levar educação e conhecimento sobre o mundo que nos cerca e chamar o público para participar. E é exatamente isso que vem acontecendo em nossas atividades digitais. E que deve continuar.

A arte, a cultura e o conhecimento vêm enfrentando uma desqualificação sistemática do governo federal, que não propõe políticas públicas efetivas e manifesta-se muitas vezes francamente hostil a esses setores. Como você vê a atual situação institucional da cultura no país?

A cultura e a criatividade sempre resistirão a qualquer governo. Temos uma capacidade de resiliência, pois por vezes vemos a transformação do público com quem compartilhamos experiências e dialogamos. Claro que boa parte do setor cultural consegue avanços mais efetivos e potentes quando tem o apoio de políticas públicas voltadas para a promoção da diversidade cultural, fomentando múltiplos segmentos, independente do potencial de retorno financeiro. Vivemos tempos desafiantes, que exigem parceria, criatividade, boa gestão e paciência. É importante que os processos de incentivos e editais não sejam demorados ou interrompidos, pois o setor cultural não possui uma rede de apoio financeiro amplamente consolidada, e grupos ou instituições menores poderão demorar muito para se reerguerem, especialmente após o impacto da pandemia no setor.

Quais são as próximas exposições e projetos do Museu do Amanhã?

Estamos trabalhando numa exposição temporária sobre os efeitos da pandemia e os possíveis desdobramentos dela para os próximos anos. Esperamos abri-la já no verão. E estamos em desenvolvimento com uma grande exposição temporária sobre a Amazônia atual e futura, cruzando ciência, sustentabilidade e os saberes tradicionais.