Tenho mais discos que amigos: objeto de adoração de colecionadores, vinil ganha força em projetos on-line

Lucio Brancato diz que nunca parou para contar, mas estima ter cerca de mil discos em sua coleção

Por Bruna Paulin e Gustavo Foster

Se, nos últimos anos da década de 1980, alguém afirmasse que no século seguinte os discos de vinil seriam mais populares do que os então recém-lançados e futuristas CDs, provavelmente seria taxado de louco – ou, pelo menos, de mal informado. O tempo passou, novos modos de ouvir música foram criados, a internet revolucionou o mercado e os bolachões chegam a 2020 com uma marca impressionante: pela primeira vez em 34 anos, foram mais vendidos do que os CDs.

Se o vinil pode ser considerado por alguns como uma mídia obsoleta, é interessante analisar como colecionadores e amantes deste formato utilizaram a internet como aliada, e não como inimiga, na popularização, no comércio e na divulgação dos discos como algo charmoso, carregado de significados e representante de uma qualidade técnica que não é possível em CDs ou plataformas de streaming. Iniciativas como o Noize Record Club, considerado o maior clube de assinatura de discos de vinil da América Latina, criado em 2014, utilizam tecnologias de 2020 para reeditar, relançar e popularizar álbuns históricos, como Os Afro-Sambas (1966), de Baden Powell e Vinicius de Moraes, o álbum homônimo Gilberto Gil (1968) e Tem Que Acontecer (1976), de Sergio Sampaio, além de disponibilizar, pela primeira vez em vinil, álbuns como 9 Luas (1996), d’Os Paralamas do Sucesso

“Quando a pandemia começou, fizemos uma campanha de conscientização, de reforço emocional para as pessoas, para que enchessem sua casa de música”, conta Rafael Rocha, criador do projeto, diretor de criação, sócio e um dos fundadores da NOIZE. “Pessoalmente, isso foi muito revitalizador durante esse período. No meu caso, a companhia dos discos, como arte, como mensagem, foi fundamental. Os assinantes do clube também parecem ter se voltado muito aos discos, e o consumo continua muito legal, não deu uma grande baixa. Houve dificuldades financeiras, mudança de comportamento econômico, mas os discos e a arte, como um todo, mantêm uma importância na saúde mental”, conta.

Desde que o clube surgiu, a revista NOIZE impressa tornou um artigo de luxo entregue aos assinantes do NOIZE Record Club em um kit exclusivo acompanhada do LP de cada edição. Criada e editada em parceria com os artistas lançados, a revista é uma plataforma visual que expande os sentidos de cada álbum. São 60 páginas com fotos, entrevistas e reportagens inéditas, que aprofundam o universo do disco. A tendência de consumo percebida por Rocha encontra eco em dados da Recording Industry Association: a queda na venda de discos de vinil durante a pandemia foi de 23%, valor semelhante aos 22% de queda na venda de faixas digitais, enquanto a venda de CDs diminuiu 48%.

Com tiragens esgotadas, prensagens como a dos Afro-Sambas reeditadas pela Noize chegam hoje a custar R$ 1.500,00 na internet. “O disco deixa de ser apenas um álbum para se tornar um objeto de arte em casos como esse”, afirma Rocha. Ele conta que um dos assinantes do clube revendia os discos para o mercado japonês, alimentando os colecionadores apaixonados por música brasileira no país e faturando em moeda local. “Se um Afro-Sambas no Brasil já está custando até R$ 1.500,00, imagina no Japão”!

Lojas tradicionais encontram refúgio no comércio digital

Se projetos digitais são uma tendência, centros de comércio musical mais tradicionais também precisaram migrar para o ambiente on-line para conseguir manter as atividades. Há mais de 30 anos vendendo vinil no Bom Fim, em Porto Alegre (RS), e vivenciando todas as fases do formato, a Toca do Disco viu-se, de uma hora para a outra, sem as visitas de colecionadores em seu espaço, já tradicional na capital gaúcha, durante a pandemia.

“Fechamos em março sem saber o que iria acontecer. Tentamos reabrir, receber pessoas mais próximas, mas não deu certo. Decidimos vender só pelo Mercado Livre, pelas nossas redes sociais e por um esquema tipo drive-thru, em que o cliente combina tudo antes e só passa aqui para retirar a compra na porta da loja. Nesses cinco meses, as vendas pela internet deram um bom retorno, e o problema se tornou outro: estoque escasso”, conta Rogério Cazzeta, fundador e proprietário da Toca do Disco.

Ele relata que não tem muita intimidade com as novas tecnologias, não sabe muito bem mexer em plataformas de streaming e vê as redes sociais como uma linguagem a ser aprendida. Com a ajuda do filho, que administra a loja ao seu lado, no entanto, Cazzeta consegue manter a Toca do Disco conectada à nova realidade. Isso não significa que a experiência é a mesma: grande parte dos garimpeiros de vinil vê a experiência de mexer nas pilhas de discos como parte do processo. É o caso do jornalista e colecionador Lucio Brancato:

“Não tenho o hábito de comprar pela internet, prefiro sempre poder estar dentro de alguma loja escolhendo. Pra mim faz parte do ritual vasculhar pilhas de discos e sempre poder trocar figurinhas com o dono ou vendedor. Então, desde o começo do isolamento estou sofrendo de abstinência aguda (e grave) de garimpo”, diz. Apesar disso, Lucio não se considera um purista: “Eu consumo em todos os formatos. Não tenho nenhum preconceito com outras mídias. Cada uma tem seu momento de uso. Para mim se complementam, dependendo da situação. Não sou um purista. Tenho achado ótimo as possibilidades dos apps de música, que te dão um acesso rápido a uma quantidade imensa de repertório. Já me aconteceu, por exemplo, de estar em uma loja de LPs fazendo um garimpo e usar os apps de música para escutar algum disco que não conhecia ou não lembrava, para saber se comprava ou não”.

Cazzeta concorda com Lucio, vê valor na experiência presencial, mas relata uma história que resume bem a relação entre fãs de vinil e a internet:

“Essas mídias digitais trazem pessoas que eu não conheço aqui para a loja… Semana passada, veio uma senhora com duas meninas, de uns 12 anos, e elas começaram a ver discos. Compraram Pet Sounds, dos Beach Boys, e Revolver, dos Beatles, e eu fiquei assim… Quando eu era guri e entrava nas lojas, gostava quando o dono da loja dava alguma atenção, então dei umas camisetas da loja para elas. De onde essas gurias tiraram essa informação? Como elas chegaram até mim? Porque a mãe não sabia o que era Beatles e Beach Boys, ficou sentada lá fora só esperando as gurias. Isso é uma coisa muito louca”.

Bate-papo com Lucio Brancato, dono de uma coleção de cerca de mil discos

Desde quando tu colecionas discos?
Não chego a me considerar um colecionador de fato. Coleção me remete mais a um “ornamento” de objetos que ficam ali expostos. Minha relação com os LPs é quase como uma prateleira de alimentos numa dispensa, onde diariamente recorro para me alimentar. Como venho de uma geração onde junto com fitas K7 só existiam LPs, dá para dizer que comecei a comprar discos por volta de 1986. Eram vendidos até em supermercados, que acredito que foi o local onde acabei comprando os primeiros discos. A coletânea Every Breath You Take: The Singles (1986), de The Police, e o Maiden Japan (1981), do Iron Maiden, foram uns dos primeiros.

Qual o tamanho da coleção no momento?
Acho que hoje deve ser algo próximo a mil discos. Confesso que nunca parei para contar. Mas, partindo de uma conta rápida, em que 10cm equivalem a 20 ou 25 LPs, deve ser por aí

O que o vinil oferece em relação aos outros suportes?
Acho que um dos grandes baratos do vinil, além do som melhor definido em alguns aspectos, é a experiência da audição. Prende mais a atenção. Desde o fato de ter que tirar ele da capa, colocar no prato e colocar para rodar, você esta concentrado numa ação de escutar. Sem falar que em algum momento você é obrigado a virar o lado para continuar ouvindo. Então tem muito isso do “parar e ouvir”.  Além, é claro, de todo o lance físico do objeto. De ter uma capa, uma obra de arte para você desvendar em detalhes.

Quais são os álbuns mais raros da tua coleção?
Nunca fui um “garimpeiro de raridades”. Os que são raros acabei descobrindo depois de comprá-los ou com o tempo foram ganhando “peso” de raridade. Um bom exemplo é o disco Shadows Collide With People (2004), do John Frusciante. Lembro que comprei logo que saiu e paguei uns R$ 70. Há pouco tempo, descobri que virou raridade. Nunca foi reeditado e a primeira prensagem do disco saiu com uma musica com velocidade alterada (corrigida numa segunda prensagem). No fim, a primeira tiragem virou item de colecionadores de raridades. Hoje, pela cotação do Discogs, varia de R$ 4 mil a R$ 7 mil essa edição. Dentro das raridades ao acaso, tenho um bootleg do Paul McCartney & Wings que encontrei sem querer dentro de uma caixa num canto de um antiquário no Leblon. É praticamente um programa de TV que eles fizeram em 1973 chamado James Paul McCartney e os “pirateiros” transformaram num LP bootleg. Óbvio que o dono do antiquário não sabia que geralmente esse tipo de disco tem um valor alto. Não devo ter pago mais de R$ 20 reais. Um baita achado!

O período de isolamento alterou o consumo de discos? Foi mais difícil comprar?
Alterou bastante. Não tenho o hábito de comprar pela internet, prefiro sempre poder estar dentro de alguma loja escolhendo. Pra mim faz parte do ritual vasculhar pilhas de discos e sempre poder trocar figurinhas com o dono ou vendedor. Então, desde o começo do isolamento estou sofrendo de abstinência aguda (e grave) de garimpo.

Tu compras com qual frequência?
Não há uma frequência. Obviamente, se fosse possível, compraria um ou mais por dia. Após o “novo estouro do vinil”, o que já foi barato virou um item muito caro. Até mesmo edições simples nacionais. Importados, então, nem se fala. Não tenho aquele fetiche de comprar disco zerados, novinhos, lacrados. Pelo contrário, tem muitos discos usados que podem até estar com a capa estragada, mas o disco está zerado. Vou mais pelo recheio do que pela embalagem. Muitas vezes o preço que você paga por um LP novinho equivale ao preço de sair da loja com pelo menos uns 10 usados.