Projeto MASP em expansão prevê prédio com 14 andares

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) anuncia neste mês o lançamento do ambicioso projeto MASP em expansão. O destaque da ampliação da instituição é um novo edifício de 14 andares, conectado por ligação subterrânea ao prédio histórico que sedia a instituição na Avenida Paulista.
A construção irá aumentar a área do museu em quase 7 mil metros quadrados de galerias, salas de aula, reserva técnica, laboratório de restauro, restaurante, loja e áreas de evento, ampliando as atividades realizadas hoje e aumentando a capacidade de visitantes. O novo prédio será batizado de Pietro Maria Bardi (1900 – 1999), primeiro diretor artístico do MASP, enquanto o edifício histórico que abriga atualmente o museu será chamado de Lina Bo Bardi (1914 – 1992), arquiteta que o projetou – nomes que, somados ao do empresário Assis Chateaubriand (1892 – 1968), completam o trio fundador da instituição.
Com essa expansão, o MASP, que já detém o acervo de arte europeia mais relevante do Hemisfério Sul, pretende se tornar uma das mais modernas infraestruturas museológicas da América Latina. O projeto será totalmente financiado por doações de pessoas físicas, e a entrega está prevista para janeiro de 2024.
Projeção da fachada. Imagem: METRO Arquitetos Associados/Divulgação
Trata-se do feito mais significativo na história do museu após a sua transferência da Rua 7 de Abril, na sede dos Diários Associados, para a Avenida Paulista, em 1968. Naquela época, a mudança ocorreu para o que o MASP tivesse uma sede à altura de sua coleção. O prédio projetado por Lina Bo Bardi – reconhecida pelo conjunto de sua obra com o Leão de Ouro Especial na Bienal de Veneza de 2021 – transformou-se em cartão postal da capital paulista e em símbolo da arquitetura moderna mundial do século 20.
“O MASP passa, assim, pelo maior processo de expansão física da sua história, feito com recursos próprios. Vamos aumentar em 66% a capacidade expositiva do museu, integrando os dois prédios, e esse é um investimento muito relevante para a cultura de São Paulo. Acredito que essa expansão consolida o museu e a própria Avenida Paulista como um eixo cultural, quem sabe o mais importante eixo cultural do Brasil, do qual o MASP, sem dúvida, é a âncora”, diz Alfredo Setubal, presidente do Conselho do MASP.
Os 14 andares do prédio Pietro serão ocupados por cinco galerias expositivas e duas galerias multiuso. O edifício também abrigará restaurante, bilheteria, loja, reserva técnica, salas de aula e laboratório de restauro. Ao final da reforma, a área total do MASP será de 17.680 metros quadrados – hoje, são 10.485 metros quadrados.
Projeção de galeria. Imagem: METRO Arquitetos Associados/Divulgação

 

Os ganhos serão múltiplos: a ampliação de acesso ao público, uma vez que será possível acolher um número significativamente maior de visitantes; uma nova e melhor estrutura para oferecer cursos e programas públicos (oficinas, palestras, seminários, formação de professores etc.); um ambiente maior e equipado com as últimas tecnologias para o restauro e preservação de obras icônicas.

Por limitações físicas, pouco mais de 1% do acervo do museu é exposto atualmente. No total, o MASP possui mais de 11 mil obras entre pinturas, esculturas, objetos, fotografias, vídeos e vestuário de diversos períodos, que abrangem a produção europeia, africana, asiática e das Américas. Esse é mais um dos aspectos que será impactado positivamente com a inauguração.

“O acervo do MASP vem crescendo. Nosso plano é que o edifício Lina seja dedicado à exposição das obras que pertencem à coleção do museu, sobretudo nas áreas do subsolo. Já as novas galerias deverão ser ocupadas com exposições temporárias, todas com pé-direito alto e equipadas com sistema de climatização e iluminação de última geração”, conta Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, acrescentando: “Atualmente, a programação do museu tem um cronograma apertado, e esses espaços vão proporcionar um respiro maior no calendário e uma melhor organização na narrativa das exposições”.

O edifício Pietro permitirá ainda complementar e qualificar as instalações técnicas do museu, com a expansão de áreas como depósitos e docas, que hoje impõem limites concretos à gestão operacional.

Projeção de sala multiuso. Imagem: METRO Arquitetos Associados/Divulgação

 

Uma parte essencial do projeto é a interligação subterrânea entre os dois edifícios, que será feita sob a Rua Prof. Otavio Mendes. Outra transformação importante será a transferência da bilheteria para o prédio Pietro, liberando o vão livre e devolvendo a esse espaço a sua utilização como praça pública – uso defendido por Lina Bo Bardi desde que idealizou a atual sede do MASP.

O edifício Pietro terá os pavimentos junto ao chão totalmente transparentes, em diálogo com o vão livre, e os andares superiores revestidos com chapas metálicas perfuradas e corrugadas, que irão permitir uma imagem monolítica sem inviabilizar as vistas da paisagem e a entrada de luz natural através de aberturas estrategicamente posicionadas, de acordo com as necessidades dos espaços internos.
Em diálogo com Heitor Martins, diretor-presidente do museu, e demais lideranças do museu, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha (1928 –2021), vencedor do prêmio Pritzker de arquitetura, enfatizou que o MASP deveria projetar um novo edifício que trouxesse todas as funcionalidades necessárias para o que se faz no museu, mas seguindo uma arquitetura que ressaltasse aquela desenvolvida por Lina, sem competir com ela.
Projeção da conexão subterrânea. Imagem: METRO Arquitetos Associados/Divulgação
O empreendimento buscará soluções sustentáveis de modo a diminuir a pegada de carbono. O projeto terá certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). O prédio será moderno e tecnológico, com iluminação em LED e automatizada, com redução expressiva no consumo de energia.

Além disso, haverá uma fachada dupla que protege o edifício da radiação solar e sombreia as janelas, diminuindo a carga térmica interna. A malha metálica que revestirá o edifício permite que uma camada de ar se forme entre o edifício e fachada externa, criando um microclima. Isso alivia o sistema de ventilação e climatização e reduz o consumo de energia.

O custo do projeto é de R$ 180 milhões e será totalmente financiado por doações de pessoas físicas – seguindo a característica que o MASP possui desde sua fundação de engajar a sociedade privada nos mais diversos projetos. “Viabilizar a construção desse prédio por meio de doações é o coroamento do novo modelo administrativo do MASP, uma instituição que tem seus pilares calcados na sociedade civil”, afirma Heitor Martins.
Projeções do prédio Pietro Bo Bardi. Imagem: METRO Arquitetos Associados/Divulgação
“Felizmente, as famílias doadoras entenderam o significado do que nós estávamos propondo de fazer uma doação, sem incentivos da Lei Rouanet, só com pessoas físicas. Com isso, mostramos que a sociedade civil organizada pode, sim, fazer projetos importantes, desde que tenham confiança na governança da instituição. Mais do que uma expansão, estamos construindo um museu para o futuro”, afirma Alfredo Setubal.
A expansão do museu foi primeiramente idealizada por Júlio Neves, arquiteto que ocupou o cargo de presidente do MASP por 14 anos, de 1995 a 2009. Na década de 1990, Neves foi responsável pela reforma que incluiu a instalação da reserva técnica do museu e a renovação do sistema de ar-condicionado.
Ele participou da compra do edifício Dumont-Adams nos anos 2000 e desenvolveu o projeto inicial para o prédio. Ao longo dos anos, o projeto sofreu alterações para obter a aprovação dos órgãos de patrimônio histórico e atender aos novos usos pretendidos para o espaço.

“Esse projeto que se inicia agora está equiparado à tecnologia aplicada aos melhores museus do mundo e não conheço outra estrutura similar no Brasil. Acredito que o MASP em expansão será um caso ímpar de planejamento e modernidade em nosso país”, acredita o ex-presidente da instituição.

O projeto arquitetônico é uma coautoria de Júlio Neves com o escritório METRO Arquitetos Associados, dos sócios Martin Corullon e Gustavo Cedroni. O escritório, que tem uma relação profícua com o MASP desde 2015, fez adaptações técnicas nos icônicos cavaletes de vidro desenvolvidos por Lina Bo Bardi que foram reinstalados no museu em 2016. Os displays flutuantes, que podem ser vistos no segundo andar, são um dos símbolos máximos do museu e fazem parte do projeto original da arquiteta.
O METRO também foi responsável por adaptar as remontagens de expografias elaboradas por Lina para o MASP em exposições como Arte da França: De Delacroix a Cézanne (2015), Portinari Popular (2016) e A Mão do Povo Brasileiro, 1969/2016 (2016-2017), além de criar novas expografias de mostras como Histórias Afro-Atlânticas (2018), eleita pelo jornal norte-americano The New York Times como uma das melhores daquele ano.
Atuaram também em melhorias no prédio, como na troca dos elevadores, na reforma do grande auditório e da área administrativa do museu. Já a implementação do projeto será liderada por Miriam Elwing, gerente de projetos e arquitetura no MASP.
Projeção da fachada. Imagem: METRO Arquitetos Associados/Divulgação

 

Fonte: MASP