MUJ ocupa uma das sinagogas mais antigas da capital paulista

A partir do dia 5 de dezembro, será aberto para visitação o Museu Judaico de São Paulo (MUJ), espaço inaugurado após 20 anos de planejamento e fruto de uma mobilização da sociedade civil. Além de quatro andares expositivos, os visitantes também terão acesso a uma biblioteca com mais de mil livros para consulta e a um café que servirá comidas judaicas.

Localizado no antigo prédio do templo Beth-EL – uma das sinagogas mais antigas da capital paulista –, o museu fica na Rua Martinho Prado, 128, no bairro da Bela Vista, e passou por um processo de restauração e modernização, além da construção de um prédio contemporâneo anexo para finalmente receber o público.

O espaço estreia exibindo quatro exposições simultâneas. Duas são de longa duração: A Vida Judaica, sobre os rituais e ciclo de vida judaico, e Judeus no Brasil: histórias trançadas, que expõe as várias correntes migratórias dos judeus para o país – do início da colonização ao Brasil republicano. Já as mostras temporárias são Inquisição e Cristãos-Novos no Brasil: 300 anos de resistência, sobre a luta dos cristãos-novos para reconstruir suas vidas no país durante os 300 anos de vigência da Inquisição, e Da Letra à Palavra, que explora a relação entre a arte e a escrita, a imagem e a palavra, a partir da reunião de 32 artistas basilares da arte contemporânea brasileira.
Museu Judaico de São Paulo. Foto: Fernando Siqueira/Divulgação

 

Estão à frente do projeto o presidente da instituição, Sergio Simon, o diretor executivo Felipe Arruda e, na curadoria, a pesquisadora e crítica Ilana Feldman, além do grupo de voluntários que construiu a instituição.

A programação expositiva do museu tem por objetivo cultivar e manter vivas as diversas expressões, histórias, memórias, tradições e valores da cultura judaica, tecendo também um diálogo com o contexto brasileiro, o tempo presente e as aspirações de seus diferentes públicos, criando assim uma matriz baseada em princípios de diversidade, resistência e atualidade.

“Concebemos o Museu Judaico de São Paulo como um espaço de visões plurais sobre o judaísmo, apresentado como um complexo sistema cultural e identitário, que está sempre se reinventando. A partir da experiência judaica, o MUJ reflete sobre o tempo presente e cria tranças com a diversidade cultural do contexto brasileiro, acionando debates sobre preconceito, intolerância e outras questões sociais e políticas urgentes”, afirma Felipe Arruda.
Museu Judaico de São Paulo. Foto: Fernando Siqueira/Divulgação

 

Com presença em solo brasileiro desde o século 16, as narrativas judaicas no Brasil são extremamente diversas, fazendo parte, de forma capilar, da formação do país e apresentando relatos de resistência e senso de comunidade. A história de um povo com uma trajetória milenar liga-se à força da comunidade judaica em Recife e ao judaísmo amazônico – exemplos de reverberações locais que, por mais que se diferenciem em alguns pontos, compartilham as mesmas narrativas originais.

O MUJ aborda a história e a memória como fenômenos vivos, que costuram passado, presente e futuro, mas também se dedica a incentivar as produções artísticas contemporâneas, promovendo um diálogo entre as narrativas e expressões judaicas, a cultura brasileira e a arte contemporânea. O museus integra a narrativa memorial de seu acervo histórico – como um talit com mais de 150 anos e talheres vindos de um campo de concentração, além de numerosos documentos e objetos – às produções atuais que elaboram a experiência judaica. Segundo a curadora do MUJ, Ilana Feldman, o museu “não é apenas lugar de preservação e difusão, mas de produção de conhecimento e experiências, em conexão com o tempo presente”.
Como aponta Sergio Daniel Simon, presidente do museu, “tanto a presença quanto a perseguição contra o seu povo no Brasil acontecem há séculos”. Fugindo dos usuais estereótipos históricos que se concentram apenas no brutal antissemitismo disseminado durante a II Guerra Mundial, Simon destaca a perseguição dos criptojudeus ibéricos flagelados pela Inquisição.
Museu Judaico de São Paulo. Foto: Fernando Siqueira/Divulgação
A primeira exposição de longa duração, A Vida Judaica, apresenta os costumes e rituais pelos quais o judaísmo se conecta com o sagrado, demarca o tempo, estuda seus textos, festeja valores, elege seus alimentos típicos e vivencia coletivamente cada etapa da vida. Aborda, portanto, os acontecimentos cotidianos da vida judaica, entendendo-os não somente sob o prisma religioso, mas também como fenômeno cultural.

Na mostra Judeus no Brasil: histórias trançadas, o objetivo é tecer uma complexa narrativa da pluralidade da presença judaica no Brasil a partir dos diversos fluxos migratórios ao longo de 500 anos. A mostra analisa ainda a pluralidade resultante dos diversos polos de implantação das comunidades judaicas no Brasil e de que formas os costumes que pautam a vida judaica se comportam em suas dinâmicas intergeracionais, sejam elas a partir de vivências individuais ou coletivas. A exposição mostra também como a comunidade judaica brasileira apresenta inúmeras interseções e confluências na contemporaneidade, embora tenham diferentes matrizes culturais e geográficas.

Alguns objetos apresentados na mostra remetem aos vínculos de Dom Pedro II com o judaísmo no Brasil Império. Ela inclui, por exemplo, um fac-símile de um fragmento de uma Torá que pertenceu ao imperador, encontrada na Quinta da Boa Vista, antiga residência imperial desde a chegada da corte portuguesa ao Brasil, hoje no acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro.
“Yair”, de Ruth S. Tarasantchi. Foto: Museu Judaico de São Paulo/Divulgação

 

Partindo igualmente de uma matriz histórico-documental, a exposição temporária Inquisição e Cristãos-Novos no Brasil: 300 anos de resistência revela o funcionamento do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição e a luta dos cristãos-novos para reconstruir suas vidas no Brasil durante os 300 anos de vigência da Inquisição. Sobretudo sobre a vida dos judeus ibéricos, a Inquisição marcou o povo judeu por fortes discriminações e perseguições.

Muitos judeus foram obrigados a migrarem e a converterem-se publicamente ao cristianismo, mas mantendo clandestinamente as práticas e crenças judaicas em espaços privados, como em suas residências. A mostra, repleta de documentos, mostra as reverberações desses intercâmbios culturais frutos de uma onda de resistência judaica nos aspectos históricos e sociológicos do Brasil.

Já a mostra Da Letra à Palavra investiga as relações, na arte contemporânea, entre a escrita e as artes plásticas, entre imagem e texto, entre a escrita como desenho e a presença das palavras nas pinturas. A exposição tem curadoria dos artistas plásticos Lena Bergstein e Sergio Fingermann e reúne 32 nomes da arte contemporânea, propondo uma grande diversidade poética e indagações plásticas e teóricas que fomentam a livre reflexão.

“Livro Socorro”, de Hilal Sami Hilal. Foto: Museu Judaico de São Paulo/Divulgação

 

A pluralidade de enfoques da questão central da exposição reúne obras muito diferentes entre si, com pactos poéticos distintos. Há trabalhos de Artur Bispo do Rosário, Beatriz Milhazes, Carmela Gross, Anna Maria Maiolino, Anna Bella Geiger, Arnaldo Antunes, Arthur Lescher, Carlos Vergara, Denilson Baniwa, Shirley Paes Leme e Paulo Pasta, entre outros.

Segundo os curadores, Da Letra à Palavra aponta a importância da construção de significados através dos espaços entre as letras e as palavras, dos vazios, dos brancos entre as linhas e entre as frases. Nesses intervalos, nesses espaçamentos, os desenhos e os textos ganham significados e tecem novas interpretações. As obras expostas levam aos rolos da escrita, trazem uma relação com o pergaminho, monotipias sobre lenços, pinturas com sobreposições de escritas e alguns trabalhos em que a escrita se mostra legível e poética, sempre duplicando as possibilidades de leituras.

Outros trabalhos têm um significado semântico explícito – avisos, indagações, palavras chaves –, levando tanto a uma poética da letra, do escrito, na sua função semântica, mas também vistos na sua função de imagem, como cartas, escritos e fotos que levam à busca de uma memória desejada e perdida. Já outros artistas trabalham com signos, traços, riscos e cicatrizes, lembrando as primeiras escritas.
“Carrinho Arquivo II” (título atribuído), de Arthur Bispo do Rosário. Foto: Museu Judaico de São Paulo/Divulgação
Um importante acervo do espaço é o Centro de Memória do MUJI, oriundo do espólio do antigo Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, coletando e catalogando documentos raros sobre a comunidade judaica no Brasil. Uma das principais iniciativas da instituição é revitalizar esse acervo documental, tanto no seu aspecto físico, de restauração, conservação e catalogação, quanto no âmbito narrativo, proporcionando o acesso atual a documentos que ajudam pessoas a compreenderem suas relações genealógicas com as dinâmicas históricas judaicas.
São mais de 20 mil livros – 8 mil em ídiche –, 100 mil fotos, 400 depoimentos de história oral, 1 milhão de documentos, periódicos e outros registros que versam sobre os imigrantes, as instituições, a cultura e a contribuição à sociedade brasileira.
“O que Separa a Carne das Sombras”, de Sergio Fingermann. Foto: Museu Judaico de São Paulo/Divulgação

 

“Sem título”, de Manoel Fernandes. Foto: Museu Judaico de São Paulo/Divulgação

 

“A Ciência É a Luz da Verdade”, de Rosana Paulino. Foto: Museu Judaico de São Paulo/Divulgação