Por que a venda de discos cresceu mais do que o streaming durante a pandemia?

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Tecnologia e plataformas bastante disseminadas, isolamento social devido a uma pandemia, cada vez mais lançamentos de músicas em single, em detrimento dos álbuns completos: todos os indícios levariam a crer o contrário, mas o crescimento de consumo de música em streaming foi menor, durante a pandemia, do que o aumento da venda de discos de vinil. Se a tecnologia do vinil pode parecer algo obsoleto, o ano de 2020 repetiu o boom da década de passada na venda dos famosos bolachões, aproveitando o momento delicado para acelerar mais rápido do que as plataformas de streaming.

O relatório anual de receita da Associação Americana da Indústria de Gravação registrou um crescimento de 29,2% nas vendas de vinil, que alcançaram um valor total de US$619,6 milhões (em 2019, o valor foi de US$479,5 milhões). A participação do streaming nas receitas totais do mercado de música gravada atingiu 83% em 2020, com um crescimento de 13,4% em relação ao ano anterior. A receita gerada pelo streaming foi de impressionantes US$10,1 bilhões em 2020, frente a US$8,9 bilhões em 2019 – algo que, segundo o relatório, foi essencial para manter o mercado da música vivo.

Já em dados divulgados pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), as vendas de discos de vinil registraram um aumento de 23,5% em 2020, maior do que o crescimento do mercado de streaming, que foi de 18.5%.

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No Brasil, não há dados específicos sobre o mercado, mas o crescimento é percebido empiricamente. Apesar das dificuldades de produção que a pandemia gerou, como atrasos em produtos e falta de materiais, empresas que trabalham com o vinil veem o público – que já era sentimentalmente bastante cativo – dar ainda mais atenção ao produto:

“Para o Noize Record Club, a pandemia foi um momento de muito esforço. Neste período de incerteza, as pessoas estão se voltando para seus locais de acolhimento. Acredito que o vinil, a música e a arte, como um todo, aproximem as pessoas deste local. No início, tivemos algumas desistências, mas fizemos campanhas em que conseguimos dialogar com esse aspecto e conseguimos um acréscimo do número de assinantes. O mercado inteiro de vinil aumentou, e a perspectiva que vejo para o Brasil é a de chegada em um momento interessante de maturação do mercado. Em 2014, quando começamos o clube, era outra realidade. Vejo que hoje o mercado já está mais estruturado, até para os artistas, então só tende a crescer. Sempre tentamos democratizar o disco, não subimos nossos valores do ano passado para este, e tentamos fazer o mais acessível possível. É uma mídia que facilmente se torna algo elitizado”, explica Rafael Rocha, sócio-fundador e diretor de criação da Noize, grupo que abrange o Noize Record Club, primeiro clube de discos de vinil da América Latina. Neste mês, o projeto chega a seu 48ª edição, com o disco Dolores Dala Guardião do Alívio, de Rico Dalasam.

Quem ratifica a percepção do vinil como ambiente de acolhimento em momento de incerteza é Rodrigo Fischmann, vocalista e baterista da banda Dingo Bells – produtor, mas, antes de tudo, consumidor de discos de vinil, como ele reforça. Os dois álbuns da banda, Maravilhas da Vida Moderna (2015) e Todo Mundo Vai Mudar (2018), foram lançados no formato por uma soma de aspectos sonoros, estéticos e também simbólicos:

“Nossa vontade de lançar os álbuns em vinil vem, primeiro, da nossa curtição pelos discos de vinil. Antes de produtores somos consumidores. Como a gente sempre prezou muito pela questão não só de qualidade sonora, ritualística e simbólica do vinil, mas também a questão estética/imagética – de poder dar maior destaque pra arte da capa, encarte e contracapa – sempre apostamos no disco de vinil como o ápice do formato musical gravado. A soma de experiência sonora, tátil e simbólica completa é a melhor cápsula para o formato que a gente sempre pirou e vai seguir pirando, que é o álbum.”

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O músico ainda apresenta uma visão sobre as intenções do fã:

“Agora, a pira de porque a galera compra o nosso vinil tem dois lados. Tem uma maior parte que se identifica com tudo isso que eu falei, dessa experiência formidável e completa que o disco de vinil proporciona, de fruição do trabalho completo em um ritual musical de contemplação, etc. Mas tem uma parte de fãs que ama aquele objeto por si só. Eles querem ter o vinil da Dingo, mesmo que depois vão escutar o álbum no streaming, ou até mesmo que vão dar o play em uma só música do álbum no streaming. Eles querem ter o nosso vinil mesmo que não tenham toca-discos. Isso é um tanto curioso, mas entendo o poder que o objeto tem no imaginário do fã de música. É o Cadillac dos formatos.”