Tá na Rede: podcasts levam a história dos discos para o ambiente digital

Apresentamos nesta edição do Tá na Rede podcasts que abordam discos completos

Por Gustavo Foster

Houve um tempo em que nos reuníamos para dar o play em um disco e escutá-lo até o final – para os mais românticos, tendo que girá-lo no momento da troca do lado A para o lado B. Pois os amantes do deep listening, ou da audição cuidadosa, levando em conta a ordem das faixas e indo do início ao fim de um disco, têm cada vez mais opções de podcasts especializados, caso de A História do Disco, da comunicadora e artista Bruna Paulin, e Discoteca Básica, do jornalista Ricardo Alexandre.

Em um momento em que o acesso físico a expressões artísticas está suspenso, a internet se apresenta como ferramenta importantíssima para que artistas, produtores e profissionais da cultura se mantenham ativos e participantes de um mercado vivo. São essas iniciativas colaborativas, que unem pela internet pessoas em um objetivo em comum, que a seção Tá na Rede vai destacar.

Leia também:
Podcast não é rádio: discutimos a ascensão do formato no episódio 11 do #Entenda
15 podcasts que você precisa escutar agora
6 dicas para quem quer começar a produzir o seu podcast

No caso de Bruna Paulin e Ricardo Alexandre, a plataforma podcast surge como espaço de discussão e análise profunda de obras musicais completas. Alexandre, ex-editor da revista musical Bizz, elenca no episódio piloto de seu podcast, números que mostram que a promoção cada vez mais abundante de conteúdo no mundo digital cria também uma demanda por produtos de fruição menos instantânea, como discos de vinil.

O jornalista cultural Ricardo Alexandre disseca álbuns inteiros em seu podcast

“Pensei em alguns formatos nos últimos dois anos, mas a pandemia me levou a procurar um formato que eu conseguisse executar totalmente dentro de casa. O podcast é também fruto de uma reflexão grande sobre as possibilidades do jornalismo de música no século XXI. Comecei em uma época em que existia o mercado físico, pelo qual as pessoas pagavam. O disco era um objeto comercial, e boa parte da imprensa de música era baseada no acesso limitado que os profissionais tinham aos discos e aos artistas. Isso não existe mais, qualquer um pode ter acesso às músicas em streaming, e os artistas, via de regra, têm seus próprios canais preferenciais de comunicação. Cheguei à conclusão ou à inclinação de que a redescoberta do suporte físico, o deep listening, a audição com intencionalidade, o ressurgimento do vinil são sinais de que há um caminho e um grupo de pessoas com quem conversar. Foi aí que surgiu o formato do Discoteca Básica“, explica o jornalista, que nos primeiros seis episódios fala sobre “a história e as histórias”, como ele diz, de álbuns históricos: Pet Sounds, dos Beach Boys, After the Gold Rush, de Neil Young, Abraxas, de Santana, Rita Lee, de Rita Lee, Remain in Light, do Talking Heads, e What’s Going On, de Marvin Gaye.

O amor à música e a vontade de produzir algo durante a pandemia também foram elementos que estimularam Bruna Paulin a produzir o seu A História do Disco, que além de discutir aspectos técnicos e a relevância histórica de lançamentos musicais, debruça-se também no aspecto emocional dos discos: como álbuns impactam na vida de cada um:

“Comecei a produzir, editar e fazer locução de podcasts no início deste ano, como uma alternativa de trabalho por conta da pandemia. Inicialmente fazia programas para clientes, como CHC Santa Casa e Casa de Cinema de Porto Alegre. Mas a vontade de produzir algum conteúdo sobre música e discos está sempre presente, pois são duas grandes paixões e assunto de pesquisas minhas desde muito tempo. Lá por agosto, conversando com uma amiga que estava me prestando uma consultoria, ela me provocou e surgiu a ideia: falar sobre discos e suas histórias, mas trazer para o lado pessoal e emocional das pessoas, que é o que nos conecta com a música, no fim das contas. A partir daí tudo fluiu bem fácil e rapidamente. Aproveitei parte das minhas pesquisas do mestrado, onde escrevi uma dissertação sobre a construção de imagens dos Beatles e dos Stones para roteirizar o primeiro episódio, que traz minha história com With the Beatles, o primeiro álbum dos Beatles que ouvi, aos cinco anos de idade e que mudou totalmente minha relação com a música”, explica ela, que recebeu convidados para falar sobre Estrangeiro, de Caetano Veloso, Antônio Brasileiro, de Tom Jobim, The Köln Concert, de Keith Jarrett, Ella Fitzgerald Sings the Cole Porter Songbook e Tug of War, de Paul McCartney.

No primeiro episódio do podcast, o único sem convidado, Bruna fala sobre With the Beatles e resume as motivações que a levaram a fazer um podcast neste estilo: “Eu tinha quatro ou cinco anos, meu pai chegou do supermercado com quatro discos, Help, A Hard Days’ Night, Abbey Road e With the Beatles. A partir dali, minha vida e minha relação com a música mudaram completamente.”  Neste sentido, ela vê no gosto por podcasts uma semelhança com o amor por discos

Quem começa a colecionar vinis tem um comportamento bem apaixonado e empolgado que vejo em quem consome podcasts no geral. Mas o tema que se sobrepõe é o da música. Eu amo vinis, mas também adoro fazer playlists, por exemplo. São experiências de consumo totalmente diferentes. Mas é pelo streaming, por exemplo, que acabo descobrindo novos sons e artistas, que aí eu vou buscar em vinil. Acredito que o público que ouve A História do Disco tenha um interesse direto por música e entrevistas e talvez se cruze com o público dos vinis. Mas sei de ouvintes que amam música mas não tem um álbum físico em casa. O amor maior é pela música, independente do suporte em que ela está”.