Você conhece a obra de Carolina Maria de Jesus?

Carolina Maria de Jesus ofereceu, em suas obras, uma visão potente e robusta de sua experiência como mulher, negra, favelada e catadora de papel

“Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.”

O trecho reproduzido acima foi escrito há mais de seis décadas por Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora brasileira que é essencial para entender muito do tecido social brasileiro: mineira, filha de pais analfabetos, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, a escritora de pouco estudo formal dividia seu tempo entre escrever a catar papel para sobreviver. Foi assim até a década de 1960, quando seus textos foram descobertos pelo jornalista Audálio Dantas, do jornal Folha da Noite, e acabaram dando origem a seu primeiro livro, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado naquele ano. A obra virou best-seller, foi vendida em 40 países e já foi traduzida para 16 idiomas.

Mais de quatro décadas após sua morte, Carolina Maria de Jesus volta a receber notabilidade: em fevereiro deste ano, tornou-se postumamente Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e recentemente inspirou o livro Carolinas – A Nova Geração de Escritoras Negras Brasileiras, que celebra os 60 anos de seu livro mais popular e reúne textos de 180 escritoras negras inspiradas em sua vida e obra.

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Lançado em parceria pela Editora Bazar do Tempo e a Festa Literária das Periferias (FLUP), Carolinas foi motivo de uma série de eventos (incluindo lives, que você pode assistir no final desta matéria) e surgiu partir da oficina “Uma revolução chamada Carolina”, realizada pela FLUP em 2020 com foco em autoras autodeclaradas negras – em 15 encontros, foram propostas conversas com pensadoras negras, como a escritora Conceição Evaristo, a atriz Zezé Motta, a rapper e historiadora Preta Rara e a deputada estadual pelo PSOL-SP Erica Malunguinho. Entre contos, diários, crônicas e relatos autobiográficos, a publicação conta com mais de 200 textos – entre eles, escritos de 20 mulheres ligadas às cooperativas de reciclagem do ABC paulista que, sob orientação do escritor Eduardo Coelho, leram Quarto de Despejo e abordaram suas experiências.

Morta aos 62 anos após uma crise de asma, Carolina Maria de Jesus lançou ainda os livros Casa de Alvenaria – Diário de uma Ex-Favelada, Pedaços de Fome e Provérbios – além de seis outras obras póstumas. Recentemente, a obra de Carolina Maria de Jesus teve seus direitos obtidos pela editora Companhia das Letras, que promete reeditar livros como Diário de Bitita. Nas obras, Carolina oferece uma visão potente de sua rotina, já que os textos eram escritos em forma de diário, muitas vezes em cadernos encontrados pela escritora durante sua atividade de catadora.

Em 2017, a história da autora foi registrada por Tom Farias em Carolina – Uma Biografia, publicada pela editora Malê.